“VIAGEM AO ESPAÇO SIDERAL”  (POEIRA DA LUA) I

Olá, sou uma terráquea que vago no espaço  há muitos anos-luz.
Como vim parar aqui? Lembro- me como se fosse nesse exato momento.
Sempre fui uma pessoa muito centrada , presa ao campo magnético da terra como ninguém. Mas um dia, eu vi aquela pessoa que eu achava que eu achava que existia somente nos meus sonhos, bem ali na minha frente. Me avisaram pra eu tomar cuidado . “NUNCA ABRAÇE ALGUÉM POR QUEM VOCÊ ESTÁ APAIXONADO. VOCÊ PODERÁ DEIXAR DE HABITAR O PLANETA DAS PESSOAS NORMAIS”
Mas eu não escutei . O abraço foi automático ao sorriso que ele me deu. Inconsequente,  o abraçei como se quisesse que ele se tornasse parte de mim pra nunca mais separar. Mas  como rezava a lenda, as vezes o feitiço não acontece da primeira vez.
Eu brinquei com o perigo, e pela segunda vez, corri pro abraço, agora com mais um agravante: o canto da Iara, a voz dele ...  e dessa vez nada aconteceu!
Como uma louca desvairada, desconsiderei a chance que os deuses tinham me dado de permanecer na terra, e , de novo, fui atrás da voz, do abraço, do olhar, agora já era o ser completo!!
E foi depois da terceira vez que descobri que não tinha mais volta. Fui pro espaço onde não podia amar mais ninguém sem ser ele.
E realmente , dali em diante as pessoas falavam comigo , era como se eu não estivesse aqui. E realmente não estava. Fui parar no planeta dos ULTIMOS ROMÂNTICOS. Até tentei trazer a poeira da lua para presenteá-lo, mas não tinha como voltar.
As pessoas falam, você não ouve. Os dias passam , mas você não percebe. O mundo gira e dá voltas, mas nada lhe diz respeito. É assim quando a gente começa a amar alguém com toda a força. Depois do abraço, você não volta do espaço , nem pra trazer uma poeirinha da lua.
Você fica preso e suspenso no sentimento , sem nada poder fazer. Você tenta reagir, partir pra outra, mas é só pra enganar a si mesmo. É como flutuar sem gravidade, você fica girando, girando e não sai do lugar.  Assim, vi meu coração se perder pra nunca mais se achar novamente.
O nosso quarto encontro foi como uma miragem, parecia não estar acontecendo, não parecia ser real. E hoje eu sei o porquê. Eu já não estava mais aqui, eu já não era mais eu. Tudo surreal, como pessoas de dois planetas tentando se comunicar. Assim éramos nós dois frente a frente. As palavras engasgaram, eu queria dizer , mas esqueci tudo, a vontade de chorar dominou. Assim foi o nosso último e talvez definitivo encontro. 
Hoje, do meu mundo distante,da comodidade do meu planetinha,  observo orgulhosa cada passo dele.  Eu, mais uma na multidão. Ele nunca saberá o que sinto , pois nossos mundos nunca mais se encontrarão. Não adianta eu chamar seu nome, pois ele não poderá me ouvir. E presa nessa dimensão milhares de anos-luz de distância, sei que não posso mais voltar pro meu querido planeta TERRA. Pois nela, a maioria das pessoas ama de forma limitada e sob condições. Não me adaptaria , eu ficaria deslocada.
Choro, mas a falta de gravidade ao meu redor vai levando minhas lágrimas. Não há sistema de som que interligue dois planetas, portanto, só me resta tristemente observar, sem poder compartilhar, toda a felicidade ao lado dele.

Sozinha e perdida na imensidão do universo, repito baixinho, deixando o meu eco se perder : “SEJA FELIZ! SEJA FELIZ!”

by  LIDICE CAMBUI

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