CUIDANDO EM SILÊNCIO”

Quando dei por mim, meio século tinha se passado. Amando o mesmo homem.
Estava com o olhar perdido e distante, mergulhada em minhas memórias, quando meu filho, agora adulto e quase grisalho, traz o nosso chocolate quente, e me pede:
-mãe, conta de novo a história do papai
- de novo, meu filho? Quantas vezes você já ouviu essa história?
- ah mãe, por favor!! Sei que você nunca vai me revelar o nome dele , mas mesmo assim conta!
- Tá bom filho!
Ele acende a lareira, pois está muito frio, e eu, em meio aos goles de chocolates começo a relatar:
- Seu pai nasceu pra música. E eu , embora Deus não tenha me dado o dom, sempre amei a música também. E foi assim que, sem planejar, que acabei conhecendo seu pai, que estava cantando naquela noite. Eu e minha amiga curtimos o show, mas ele notou a gente. Até porque quando terminou de cantar , eu fiquei lá, imóvel, olhando perdida pro palco, depois que ele saiu.
- a senhora sempre foi assim né, intensa e transparente?? Kkkkkkkk
- respeita sua mãe, menino! Olha os meus cabelos brancos! Olha que eu não conto mais a história hein
- tá bom, mãe
- Ele era alto, cabelos pretos, fartos e sedosos! Olhos de jabuticaba, estilo cowboy, a voz mais linda que já escutei em toda a minha vida
- para mãe, assim fico enjoado kkkkkkkkk
- tá, vou  tentar resumir. Sabe porque eu fiquei  imóvel depois que o som terminou? Porque ele tinha me mandado um bilhetinho com o telefone dele
- e a senhora nem gostou , né??
- menino, menino, te boto de castigo
- tá , continua a história
- eu guardei aquele pedaço de papel como uma relíquia, mas achava que , como eu nunca teria coragem de ligar, ele também nunca ligaria para uma pessoa comum como eu. Um dia, eu resolvi discar só pra ouvir o alô da pessoa. Mas aí , ele retornou e decidido , todo seguro de si , falou: “eu sei que é você”. Daí eu tive que reponder, gaguejando: “ você quem?” ai ele “ a garota de rosa que tava aquele dia na festa me vendo cantar. Garota de rosa, você tem nome?” .
Aí eu: “LI-LI-Li “  e como o resto não saía , ele falou rindo :
-ah muito prazer, Lili, seu nome é muito bonito. Por acaso, você teria um tempinho de ir me ver cantar? Não exatamente pra me ouvir cantar, mas para conversarmos.
Aí eu fui relaxando mais com a brincadeira e respondi:
 -por acaso o cowboy cantor tem nome?
 E ele :
-pode me chamar de cowboy cantor”.
(Putz  acertou na mosca de primeira!)
- ai mãe chega logo na parte que interessa, fala como eu nasci
- calma menino! Então como eu tava dizendo, eu era até bonitinha sabia? Me dê esse espelho aí, filho. É , só o reflexo que mudou um pouco. Bem,na outra semana, fui assistir seu pai cantar num pub, ele ainda não era famoso, mas tinha posses , herança de família. Por isso, podia se dar ao luxo de trabalhar por amor à profissão.
- Manhêeeeeeee,não enrola
- A carreira dele deslanchou ao mesmo tempo que o nosso romance. Do pub, a gente foi dar uma volta na orla, conversamos até quase raiar o dia. Quando foi chegando perto da minha casa, ele me agarrou, e aquele beijo me viciou. Não demorou muito para que a gente saísse pra jantar e acabasse ficando pro café.
- pula os detalhes mãe kkkkk
- seu pai era inteligente demais, além de cantar, tinha um tino empresarial infalível! Ficou rico em pouco tempo, construiu um império cooperativa de artistas. Bonito, generoso, inteligente, romântico, só um detalhe: quando você apareceu, ele sumiu! O showbusiness acabou levando ele de mim. Seu pai sempre foi um espírito livre, muito arisco e determinado, eu não queria jamais atrapalhar a vida dele.
- Eu pareço com ele? Você nunca me mostrou nenhuma foto dele
- ah, prefiro guardar tudo aqui, filho, na mente e no coração! É o lugar mais seguro pra se guardar esse tipo de memória. Sim, você é parecido com ele. Então filho, mesmo ele tendo ido embora da minha vida para sempre, deixou uma parte dele comigo, a melhor parte, você. Designios de Deus, porque naquela época os médicos diziam que eu não poderia ter filhos. Talvez Deus quis me consolar, me mostrando o mais espantoso milagre , que eu poderia gerar uma vida. Confesso que tentei comunicar a ele que ele era pai, mas todas as minhas ligações eram dificultadas pela acessoria. Acabei desistindo. Resolvi trabalhar e criar você da melhor forma, te ensinar a se orgulhar do pai que você teve, mesmo que eu não te diga o nome dele. Seu pai fez muito sucesso e teve muitas mulheres depois de mim.
-mas mãe, porque você não se casou com outra pessoa?
- ah meu filho, eu nunca quis sabe! Nunca gostei de ninguém depois de seu pai! Dentro de mim eu sempre soube que ele seria o primeiro, último e único da minha vida.
- e ele nunca te procurou?
- essa parte é que nunca lhe contei e acho que você tem o direito de saber.  Seu pai, no leito de morte, mandou descobrir meu paradeiro e me chamar. Dada a gravidade da situação, acabei indo. Chegando lá, ele pediu para nos deixar a sós, e contei toda a verdade pra ele, mostrei sua foto. Depois de quarenta anos, estávamos ali frente a frente. Ele ficou muito emocionado, pois só tivera uma filha em toda a sua vida. Nunca tinha se casado civilmente, mas tinha vivido com a mãe da filha dele por um tempo. Que sempre lembrava de mim, mas tinha vergonha de me procurar, pois se sentia culpado por ter me abandonado.
- sério, mãe? A senhora nunca me contou...
- pois é, filho- e as lágrimas encheram meus olhos- você é o meu milagre de amor. Ele soube da sua existência e se orgulhou muito de você, mesmo nos últimos minutos de vida. Ele me pediu perdão, disse que tinha sido um covarde de não ter assumido nosso amor. E que eu seria a única pessoa com quem ele se casaria na igreja e no papel.  E enquanto nos olhávamos, silenciosamente nos perguntando o que nos havia separado, qual a razão verdadeira de não termos ficado juntos, ele fechou os olhos segurando minha mão e deu o último suspiro.

[E assim,  eu e meu filho terminamos o chocolate e a conversa, ficamos ali, apenas admirando a paisagem de inverno pelo vidro da janela]

by Lidice Cambui

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