"TRÊS GAIATAS NO NAVIO"
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Era uma segunda feira preguiçosa de feriadão e eu, morta de
ressaca, pensava se deveria ou não me levantar da cama para ajudar a minha mãe
lavando a louça do café da manhã. Finalmente me levantei para atender o meu
celular que tocava insistentemente.
- Bom, amiga!
- Bom dia miga! – Respondi ainda meio sonolenta.
- Tenho uma boa notícia prá te dar. Você ta sentada?
- Acabei de fazer isso agora, miga. Qual é a boa notícia? –
Indaguei curiosa.
- Lembra daquele show que aquela dupla faz uma vez por ano num cruzeiro?
- Claro que me lembro. Mas o que tem o show do cruzeiro? –
Perguntei ainda mais curiosa.
- Esse ano o cruzeiro vai sair de Salvador para Santos e a Bruna
ta bolando um plano para a gente embarcar nesse cruzeiro...
- Vocês piraram? Onde a gente vai arranjar dinheiro para
esse cruzeiro? Quanto vai custar essa aventura mesmo?
- O cruzeiro custa 6 mil reais, a cabine para 3 pessoas. –
Respondeu ela.
- Então hoje à tarde você e a Bruna dão um pulinho aqui em
casa para a gente conversar sobre o plano.
Passei o resto do dia pensando naquela estória. Onde já se
viu 3 estudantes durangas planejarem fazer um cruzeiro de navio? De onde sairia
esse dinheiro se a mesada das 3 mal daria para comprar as passagens para
Salvador?
Pontualmente às duas da tarde, a Li e a Bruna chegaram,
ambas bastante entusiasmadas pra me contar o plano:
- A idéia é a seguinte: A gente vai de buzu até Salvador,
espera o navio chegar e fica esperando a primeira oportunidade para embarcar
sem que ninguém nos veja entrando no navio. Depois que o navio zarpar, eles não
poderão jogar a gente no meio do mar e, já estando lá, vai ser mais fácil dar
um jeito de assistir o show e até mesmo conhecer a dupla. – Explicou a Bruna,
como se aquilo tudo fosse a coisa mais simples do mundo.
Como eu permanecia parada, estática e muda, a Li então
perguntou:
- E aí? Você topa?
- Como eu posso topar participar de uma aventura tão
arriscada dessas? Vocês não pensaram que as 3 gaiatas podem ir do navio para a
cadeia?
- Mas você não quer assistir ao show e conhecer a dupla? Ou
melhor, você vai perder a chance de conhecer o Ricardo? – Indagou a Bruna, já
apelando.
Eu nem sei onde eu estava com a cabeça quando finalmente
concordei em fazer parte daquele plano maluco, mas o fato é que eu acabei
concordando e fui com as meninas ao banco para ver se a mãe da Bruna tinha
depositado o dinheiro para ela.
- Minha mãe só depositou metade da minha mesada e não dá pra
comprar a passagem pra Salvador. – Constatou ela meio triste.
- Compramos as passagens até Ipirá e de lá prá Salvador a
gente arruma uma carona. – Sugeriu a Li.
Antes mesmo que eu tivesse tempo pra discordar, a Bruna
aceitou a sugestão da Li e lá fomos nós comprar as 3 passagens.
Agora já tava feito. Passamos a semana aprontando as roupas,
arrumamos cabelos e unhas e, é claro. Falamos para as nossas famílias que a
gente ia passar uma semana acampando com o pessoal da minha faculdade.
Finalmente chegou o dia da viagem e eu já não tinha mais
como desistir do plano, mesmo achando que as 3 gaiatas no navio poderiam até
acabar em cana, se algo desse errado.
Entramos no buzú às 7 da manhã, mochilas nas costas,
sacolinhas com lanches e muita esperança na bagagem. Quando chegamos em Ipirá,
falamos com o motorista que a gente gostaria de ir até Salvador, mas que a grana
não tinha sido suficiente para comprar as passagens.
Enquanto o pessoal do buzú almoçava, o motorista se
empenhava pessoalmente em arranjar uma carona para nós 3:
- Eu só não levo vocês até Salvador porque a empresa
descontaria o valor das passagens no meu salário, além de me dar uma punição.
Mas eu conversei com aquelas 3 moças ali e elas me garantiram que levam vocês
até Feira de Santana e, de lá, fica mais fácil para vocês pegarem outra carona
para Salvador. – Explicou o motorista apontando para 3 moças que estavam
comendo sanduíche na lanchonete da rodoviária.
- Deus te ajude, motô! E em que carro elas estão? –
Perguntou a Li toda feliz.
- Naquele ali. – Respondeu o motorista apontando para um
carro da polícia que estava parado próximo ao ônibus.
- Mas a gente vai num carro da polícia? – Perguntou a Bruna.
- Foi a carona mais segura que eu encontrei. Eu não poderia
pedir a qualquer pessoa para levar vocês. Não é mais seguro ir com a polícia do
que se arriscar a pegar carona com um bandido ou um vagabundo? – Argumentou o
motorista cheio de razão.
Pensando melhor, acabamos concordando com ele e, depois de
agradecer bastante, embarcamos na caminhonete com as 3 policiais.
Elas até que eram bem simpáticas e foram conversando com a
gente no caminho até Feira de Santana. Contaram que tinham vindo de Feira para
Ipirá para participarem da inauguração da delegacia da mulher que tinha
acontecido no dia anterior. As 3 eram da PM: uma era delegada, outra era
pscicóloga e a terceira era advogada especializada em direitos da mulher.
Quando chegamos em Feira, elas nos deixaram em um posto de
gasolina onde seria mais fácil achar carona para Salvador. Deram para a gente
30 reais para a gente comer alguma coisa, caso não aparecesse carona até a hora
do jantar.
- A primeira carona que aparecer a gente pega.
- Nada disso, Bruna! Lembre-se do que o motô do buzú falou e
ele ta coberto de razão – repliquei franzindo a testa.
Depois de uma espera que durou mais de uma hora, o frentista
do posto veio falar com a gente que havia arrumado uma carona para a gente ir
até Salvador. Fomos até o restaurante do posto e lá estava um senhor que
aparentava ter uns 50 anos. Ele estava lanchando em uma mesa, acompanhado por
uma senhora mais ou menos da sua idade e uma moça bem mais jovem com um bebê de
colo.
- Eu estou indo de caminhão para Salvador e posso levar
vocês. Isso se vocês não se incomodarem de ir na carroceria do caminhão, porque
eu estou aproveitando que vou levar uma carga para Salvador e tô levando também
minha esposa, minha filha e meu netinho para conhecerem o mar. – Explicou o
caminhoneiro.
Como não ia demorar para anoitecer e o frentista do posto
disse que conhecia aquele caminhoneiro, resolvemos aceitar a carona.
O que a gente não sabia era que a carga que ele estava
levando para Salvador era umas 50 galinhas vivinhas da Silva. No início a gente
achou estranho chegar em Salvador na carroceria de um caminhão carregado de
galinhas. Mas depois foi ficando engraçado e a gente teve uma crise de riso,
rindo da nossa própria situação. Quando o caminhão passava num quebra-mola as
galinhas se assustavam e começavam a cacarejar todas deuma vez. A gente então
disparava na risada e acabava zoando mais que as galinhas.
Já era noite quando chegamos em Salvador e o caminhão parou
na feira de São Joaquim para entregar as galinhas ao comprador. Desembarcamos
ali mesmo, pois já ficava bem perto do porto de onde partiria o cruzeiro na
tarde do dia seguinte com destino a Santos.
- Vamos procurar um restaurante para jantar, um bem baratinho
é claro. – Sugeriu a Li.
- Nada disso, miga. Vamos procurar um local bem baratinho
para passar a noite, que nós não vamos dormir na rua. Pode ser perigoso. –
Replicou a Bruna.
- Eu acho que a Bruna ta certa. O dinheiro que temos é pouco
e se a gente jantar, a grana não vai dar pra dormir num local seguro.
Fomos então ao encontro do quitandeiro que havia comprado as
galinhas e ele nos indicou uma pousada bem baratinha que ficava logo ali perto.
- Não tem luxo, mas é de gente direita. Vai dar pra vocês
passarem a noite e ainda tomarem um café da manhã com um pãozinho com manteiga,
café e leite.
Era tudo o que a gente precisava. A dormida com café da
manhã ficava por 15 reais para cada uma. Cuidamos logo de colocar nossas coisas
no quarto e fomos pegar a fila do banheiro para tomar banho, escovar os dentes
e cair na cama, pois todas estávamos bastante cansadas.
Cair na cama foi fácil, mas dormir foi uma verdadeira odisséia.
No quarto ao lado do nosso estava hospedado um casal que mais parecia um casal
de gatos fazendo amor no telhado. Além do range-range da cama a mulher fazia um
verdadeiro escândalo na hora de fazer amor, não permitindo que a gente pegasse
no sono. Mais tarde, no quarto do outro lado se hospedou um cara que provavelmente
estava bêbado e tinha sido posto pra fora de casa pela esposa, porque ele a
cada meia hora cantava a plenos pulmões:
- Eu não sou cachorro não, pra viver tão humilhado.
Quando finalmente tudo se aquietou, já era dia e a gente
acabou não dormindo quase nada. Tratamos de pular logo da cama, antes que a
fila do banheiro ficasse muito grande. Com sorte, fomos as primeiras da fila do
banheiro e também fomos as primeiras a entrar no refeitório para o café da
manhã.
O café da manhã era realmente como o quitandeiro havia dito,
pão com manteiga e um café com leite, mas para nós estava ótimo.
Na hora de pagar a hospedagem a Bruna pechinchou tanto que a
dona da pousada acabou cobrando 30 reais, 10 de cada uma em vez de 15 que era o
preço normal da diária. Com os 15 reais que sobraram, acabei comprando algumas
frutas na feira e fizemos 20 copinhos de salada de fruta para vender na praia
durante a manhã.
Vendendo cada copo de salada a 3 reais, faturamos 60 para
garantir o nosso almoço num restaurante que ficava já na área do porto.
Agora já vendo a tarde chegar e com o navio já atracado era
pensar em uma maneira de embarcar sem que ninguém nos visse. Os passageiros já
começavam a chegar e, acompanhados pelo guia de turismo, seguiam para a sala
vip enquanto as malas eram entregues à tripulação para serem faturadas e
levadas para as cabines.
O tempo passava e nada de oportunidade para a gente
embarcar. Eu via se aproximando a hora do navio zarpar e nada acontecia. Foi
quando parou um furgão que vinha de uma delicatécessen para abastecer o navio
de pães, biscoitos, bolos, torradas e doces. A Bruna praticamente puxou a Li e
eu pela mão e corremos para ficar bem próximas do carro e, a Bruna ainda
trombou com o moço da perua que estava com o celular na mão, fazendo com que o
celular caísse no chão. Para nossa sorte, na queda, a bateria do celular voou
longe e o rapaz foi procurar e recolocar a bateria no celular. Esse tempo foi o
suficiente para que nós 3 nos enfiássemos debaixo daquela montanha de pacotes
de pão e ficássemos bem quietinhas esperando que o capitão liberasse o carro
para adentrar o navio para ser descarregado.
Saímos rapidamente do carro e ficamos por um tempo
escondidas no porão do navio, onde ficava a despensa. Até deu para cochilar um
pouco, recostadas nos sacos de arroz, feijão, farinha e açúcar e, quando nos
demos conta, já era noite e o balanço do navio nos dava a certeza de que ele já
estava navegando. Deixamos as nossas coisas lá mesmo na despensa e começamos a
circular discretamente pelo navio. Era fantástico. Tinha piscina, boate,
barzinhos, restaurantes, academia, salão de jogos, teatro, cinema, salão de
beleza e até mesmo um pequeno shopping.
Estávamos simplesmente maravilhadas com tudo que aquele
cruzeiro oferecia, embora a gente não tivesse dinheiro para usufruir de nenhuma
daquelas opções de lazer.
Mas a gente tava se divertindo só em ver os outros se
divertirem. Sendo a mais tagarela das três, a Li logo começou a puxar papo com
um ou outro passageiro e acabou descobrindo que a dupla embarcaria em Ilhéus às
duas da manhã, logo após um show que eles fariam em Porto Seguro e que o
show no navio seria no dia seguinte.
Nos deitamos em 3 cadeiras à beira da piscina e ficamos ali
admirando a beleza da lua refletida no mar, espetáculo belíssimo produzido pela
natureza naquele momento. Tudo ia muito bem se nós não tivéssemos sido
flagradas por 2 tripulantes do navio que vieram limpar a área da piscina.
- Não é permitido ficar aqui até essa hora, senhoritas.
- A gente acabou se distraindo e nem vimos o tempo passar. –
Respondeu a Bruna.
- Por favor as senhoritas queiram voltar para as suas
gabines. - Replicou um dos marinheiros
de modo bastante gentil.
- É que... é que... é que a gente ta perdida e não sabemos
onde fica a nossa gabine. – Gaguejou a Li.
- E qual é o número da gabine das senhoritas? Poderemos
ajudar a encontrar. – Sugeriu o outro marinheiro de forma igualmente gentil.
Nós continuávamos paradas, nos entreolhando assustadas. Como
não havia outro jeito, eu então tomei a palavra e acabei relatando para os
marinheiros toda a nossa estória, a nossa vontade de conhecer a dupla, o plano
e tudo o que a gente tinha passado para chegar até ali.
Agora eram os marinheiros que se entreolhavam perplexos e
sem saber que atitude deveriam tomar em relação a nós 3. Finalmente um deles
disse:
- Não podemos ficar escondendo vocês aqui. Vamos ter que
levar o caso ao conhecimento do capitão, o comandante do navio. Nos acompanhem,
por favor.
Por um momento eu pensei que a gente ia acabar na cadeia.
Seguimos em silêncio, acompanhando os 2 marinheiros pelos corredores do navio
até que chegamos à gabine de comando. Depois que os marinheiros contaram como
eles nos encontraram e tudo o que a gente havia relatado para eles, o
comandante pediu que os 2 se retirassem porque ele precisaria conversar com a
gente.
Os marinheiros ficaram aguardando do lado de fora enquanto
durasse a conversa:
- Quer dizer que as 3 são estudantes? – Perguntou ele.
- Somos sim senhor. Eu faço administração de empresas, a Li
faz direito e a Bruna faz veterinária. – Respondi apontando para cada uma das
minhas amigas enquanto falava.
- E vocês correram todo esse risco simplesmente para assistir
o show de Ricardo e Rafael? – e o capitão agora já com um leve sorriso no
rosto.
- Foi sim senhor. A gente é muito fã da dupla e posso lhe
garantir que as 3 fariam qualquer coisa para assistir a esse show e, se
possível, até conhecer a dupla. – Respondeu a Li ainda meio assustada.
- Eu poderia desembarcar vocês assim que o navio atracar no
porto de Ilhéus daqui a algumas horas...
- Não faça isso, eu imploro. Deixe a gente ficar, por favor!
A gente nem teria dinheiro para voltar de Ilhéus para Irecê porque a gente já
investiu o dinheiro comprando as passagens de Santos para Salvador. –
Interrompeu a Bruna.
- Podem ficar calmas porque eu não vou fazer isso.
- Não vai fazer? – Perguntei surpresa.
- Não, não vou. Em 1985, quando aconteceu o primeiro Rock in
Rio eu devia ter mais ou menos a idade de vocês. Eu morava em Curitiba e, como
todo estudante, não tinha grana para ir ao festival.
- E aí? – Perguntei já interessada em saber do final da
estória.
- Aí eu comprei o ingresso para assistir ao show do Queen,
banda da qual eu era muito fã, mas o dinheiro só dava para o ingresso. Aí eu
fui pegando carona de Curitiba até chegar ao Rio de Janeiro e finalmente
assistir ao show.
- E o que o senhor vai fazer com a gente então? – Indaguei
curiosa.
- Eu não posso arranjar uma gabine e colocar vocês para
fazerem o cruzeiro como passageiras comuns, mas existem muitos estudantes que
trabalham em navios para ganharem um dinheirinho. Vou pedir aos marinheiros que
estão aí fora para acompanharem vocês até os dormitórios da tripulação e vocês
ficarão dormindo por lá. Amanhã bem cedinho vocês se apresentam na cozinha para
ajudarem no serviço. – Explicou o comandante.
- E quanto ao show da dupla? – Perguntou a Bruna.
- Providenciarei para que vocês tenham acesso ao local do
show para assistir e realizar o sonho de vocês.
– Respondeu o capitão.
- E para a gente conhecer a dupla? – Indagou a Li.
- Para conhecer a dupla vocês terão que contar com a sorte,
pois isso eu não garanto que vai dar para conseguir. – Respondeu ele agora já
sorrindo.
O capitão levantou-se da cadeira, abriu a porta e pediu aos
marinheiros que fosse conosco para apanhar nossas coisas na despensa e depois
nos conduzissem até os dormitórios da tripulação.
Os dormitórios eram dois vãos bem grandes, um feminino e
outro masculino. Havia um monte de beliches e sofás-cama para a gente dormir
todo mundo junto. Cada uma tinha a chave de uma das portas numeradas dos
armários para guardar as suas coisas. Em cada dormitório havia ainda 6 toaletes
com chuveiro pia e vaso. Os dormitórios também contavam com ventiladores de
teto para não ficar tão abafado, já que a localização era no subsolo.
Finalmente as coisas pareciam estar entrando nos eixos.
Diferente da noite anterior na pousada, tivemos uma boa primeira noite de sono
no navio.
No outro dia bem cedo, já de farda, luvas e avental
fornecidos pelo coordenador do serviço de limpeza, nos apresentamos na cozinha
para começar o serviço justamente na hora de lavar a louça do café da manhã. E
haja louça. Eram pilhas e mais pilhas de pratos, xícaras, tigelas, copos, bandejas,
travessas, jarras, talheres e etc. Parecia que a louça brotava do chão e não
acabava nunca. Eu já estava com os dedos enrugados quando finalmente nós 3 e
mais outras 3 moças fomos substituídas por outra turma. Nunca vi tanta louça na
minha vida. Acabou a louça do café da manhã e veio a louça do lanche. Acabou a
louça do lanche e veio a louça do almoço e já eram duas da tarde quando
mandaram a gente parar de lavar louça.
Fomos então tomar um banho e depois dar uma volta pelas
dependências do navio pra ver se a gente tinha a sorte de ver a dupla que já
estava à bordo desde as duas da manhã. Tentativa em vão, pois nem os músicos
sabiam nos informar onde provavelmente a gente poderia encontrar a dupla a
gente encontrava.
Cansadas da procura, a Li e a Bruna resolveram ir dar uma
voltinha no shopping do navio, só mesmo para ver as lojas. Eu entrei num dos
barzinhos do navio e fiquei ali sentada numa mesa observando o mar através de
uma vidraça. Fiquei ali por um bom tempo, até me dar conta de que bem ali na
minha frente havia um belíssimo piano de cauda. Eu tocava teclado desde os meus
15 anos e, vendo aquele piano ali, resolvi arriscar uns acordes e uns solos.
Comecei tocando férias em Salvador, praia brava e algumas pessoas começaram a
se juntar no barzinho, inclusive o capitão do navio que se sentou em uma mesa
próxima e começou a me aplaudir, junto com outras pessoas que estavam em sua
mesa e em outras 3 ou 4 mesas. Quando eu comecei a tocar gaveta, ouvi uma voz
que me acompanhava fazendo a segunda. A voz vinha da mesa do capitão e não
demorou muito para que eu a reconhecesse e parasse de tocar repentinamente, tomada
pelo susto.
Vendo que eu havia parado de forma repentina, o capitão
então indagou:
- O que houve, mocinha? Só porque o Ricardo está aqui você
está com vergonha de tocar e cantar?
Como eu continuava paralisada, o Ricardo então aproximou-se
do piano e iniciou os primeiros acordes de lápis de cera, pedindo que eu
cantasse junto.
Depois de tomar um copo com água que o capitão pediu para o garçom
me entregar, fui me refazendo do susto e comecei a acompanhar o Fernando na
música. Depois de lápis de cera, foi Madrid e por fim, previsão do tempo e
domingo de manhã. Naquele momento todas as mesas do barzinho já estavam cheias
e os flashes das câmeras fotográficas e celulares não paravam de disparar.
Mandei rapidamente um zap no celular da Li e em 10 minutos as duas chegaram no
barzinho e nem sequer esperaram o fim do filme que elas estavam assistindo.
Quando elas chegaram já encontraram o Dudu ao piano e eu já estava sentada numa
mesa com o Fernando e o capitão do navio tomando shampagne francês.
As duas juntaram-se a nós e o papo foi longo. A gente acabou
contando toda a nossa aventura para o Fernando que ficou feliz e surpreso com
tamanha demonstração de carinho pela dupla, além da nossa coragem para correr
todo aquele risco.
- E por falar em dupla, onde anda o seu parceiro que não
aparece? – Indagou a Bruna.
- Ah! É verdade.! Vou dar um toque pra ele e garanto que
daqui a uns 20 minutos ele chega aqui. Afinal o sonho de vocês de conhecer a
dupla precisa ser realizado por completo, pra valer o esforço que vocês
fizeram. – Respondeu o Fernando, já com o celular na mão.
- Na verdade eu e a Li sonhamos em conhecer o Soroca, porque
o desejo da nossa amiga tecladista aí já foi realizado. – Aparteou a Bruna com
toda a disposição que sempre lhe foi peculiar.
- Quer dizer que o seu sonho então era drdme conhecer? – Perguntou
o Ricardo olhando diretamente nos meus olhos.
Como eu continuava imóvel e paralisada, a Bruna continuou:
- Na verdade, ela só topou participar com a gente nessa
aventura porque eu consegui provar pra ela que essa seria a melhor oportunidade
que ela teria para lhe conhecer.
Eu não sabia se matava a Bruna ou se me escondia debaixo da
mesa, vermelha de vergonha. Mas, antes que eu decidisse o que iria fazer, o
Ricardo adentrou o bar e veio caminhando na nossa direção.
Antes que ele chegasse na nossa mesa, a Bruna e a Li se
levantaram e saíram correndo ao encontro dele.
- E aí? Eu fiquei muito feliz por você ter conseguido
realizar o seu sonho.
- Ainda foi melhor do que eu poderia sonhar. Eu até
imaginava que esse cruzeiro seria uma oportunidade de te conhecer, mas assim
mesmo eu ainda achava que seria difícil. Cantar e tocar com você era coisa que
nunca passou pela minha cabeça, nem no mais colorido dos meus sonhos.
- Você vai pro show? – Perguntou o Ricardo.
- Eu e as meninas vamos. O capitão prometeu que a gente iria
assistir ao show.
- E o jantar do comandante amanhã? Você vai?
- Esse aí é um jantar de confraternização que o navio
oferece aos passageiros na última noite do cruzeiro. Nós enquanto tripulantes
do navio não temos direito a participar desse jantar e, aliás, nem roupa para
ir a esse jantar a gente trouxe. È traje a rigor. – Expliquei.
- Vamos começar tudo do começo. – Ponderou ele.
- Começar do começo o quê? – Indaguei curiosa.
- O Capitão já tinha me contado a estória de vocês desde
quando a gente estava conversando na mesa, quando você ainda nem tinha se dado
conta de que eu estava ali. Aí eu pedi para o Alan, nosso braço direito da
produção para providenciar uma gabine para vocês três, tudo por conta da dupla,
é claro.
- Sim! Mas e daí? – Perguntei bastante surpresa.
- E daí você e suas amigas agora são passageiras como
qualquer outro e, portanto, podem participar do jantar. – Explicou ele sempre
sorrindo.
- Mas a gente não tem roupa para ir a esse jantar. –
Argumentei.
- Você é minha convidada e vai a esse jantar comigo. A dupla
vai fazer uma participação especial nesse jantar. Uma coisa bem intimista, sem
a banda, só voz violão e piano. – Explicou ele.
- Então eu vou de qualquer jeito. Não posso perder um show
no estilo de uma premium.
- Você não precisa se preocupar com esse lance de roupa.
Amanhã você vai com as meninas no shoping do navio e compra uma roupa bem
bacana para vocês irem ao jantar.
- Quer dizer que eu posso levar as meninas? – Perguntei toda
feliz.
- Claro que pode. Você não acha que as suas amigas tem o
direito de ver esse show da dupla e, principalmente de ver você tocando e
cantando comigo?
- Como é que é? Você ta dizendo que eu vou tocar e cantar
com você amanhã nesse jantar de gala?
- Exatamente.
- Mas é muita responsabilidade. Hoje foi uma coisa sem
compromisso e no mais puro improviso.
- Mas eu tenho certeza de que você vai dar conta. Talento
pra isso eu já vi que você tem de sobra. – Replicou ele.
Naquele momento chegaram
as meninas, o Ricardo e o Alan, fazendo a maior algazarra. O Rafael pediu mais
uma garrafa de shampagne e ficamos ali os 6 batendo papo, tirando fotos e
tomando shampagne por mais ou menos uma hora e meia, até o momento em que o
Alan e a dupla foram descansar para o show.
Antes porém o Alan nos acompanhou até a gabine onde a partir
daquele momento a gente ficaria hospedada e, não por coincidência era no mesmo
andar em que estava hospedada a dupla, os músicos e todo o pessoal da produção.
Eu e as meninas nem estávamos acreditando em tudo o que
estava acontecendo. A Li suspirava o tempo todo, a Bruna gargalhava vendo a
cara de boba da nossa amiga e eu, de vez em quando, me beliscava para ver se eu
estava mesmo acordada.
Descemos para fazer um lanche, com tudo o que a gente agora
tinha direito e depois subimos para nos arrumarmos para o show. Finalmente
chegou a hora do show e nós 3 fomos as primeiras a chegar. Ficamos num
excelente lugar, bem pertinho do palco. As pessoas foram chegando e em pouco
tempo o local já estava lotado.
De jeans, blusas xadrez, botas e chapéus, lá estávamos nós
bem em frente ao palco quando o show começou. Já no Bobeia pra ver, que foi a
primeira música do show, os meninos viram a gente e começaram a jogar beijos,
dar tchauzinho e até jogaram toalhinhas padronizadas para a gente.
E lá em baixo a energia da galera bombava, especialmente a
nossa. A gente dançava, pulava, vibrava e cantava todas as músicas do início ao
fim. No fim do show, as 3 ganharam rosas do Ricardo e quando o show acabou, o
Alan veio ao nosso encontro para nos conduzir ao camarim onde a dupla nos
aguardava.
- Agora chega de trabalhar e vamos pra balada! – Anunciou o Rafael,
enquanto entregava chapéu e fivela para a Bruna e para a Li.
- E eu não ganho não é? – Perguntei desapontada.
- O Seu presente é outro! – Respondeu o Ricardo me
entregando uma paleta e um violão autografado.
- Mas esse não era o que você tava usando no show? –
Perguntei emocionada.
- Esse mesmo. Ele é seu agora. – Respondeu ele.
- Mas e aí? Vocês vão ou não vão pra balada com a gente? –
Insistiu o Rafael.
- Claro que vamos! – Exclamou a Bruna já respondendo pelas
3.
- Então vamos! – Exclamou o Ricardo segurando a minha mão.
Fomos os 6 para uma das boates do navio. Uma onde só tava
rolando sertanejo remix. Dançamos pra valer e tomamos todas. Ninguém estava
bêbado, mas tava todo mundo mais solto e bastante relaxado e à vontade. A
aquela altura parecia que todos já nos conhecíamos há anos. Depois da boate, fomos jantar num dos
restaurantes do navio e terminamos a noite tocando violão e tomando uísque no
terraço do navio para ver o sol nascer.
No final da farra, o Ricardo me convidou pra ir com ele para
a gabine dele e eu, sem pestanejar, aceitei o convite. Valeu apena. Foi uma
experiência que eu jamais imaginaria viver, mesmo já tendo sonhado com isso
inúmeras vezes.
Voltei para o meu quarto lá pelas 10 da manhã, já depois do
café e as meninas estavam dormindo quando eu cheguei. Deitei-me na cama e
tentei dormir, mas a cabeça estava a mil. Era muita informação para processar,
muita coisa tinha acontecido em um curto espaço de tempo.
Era mais ou menos uma da tarde quando acordamos com a
camareira batendo na porta para dizer que o Alan nos aguardava para ir ao shopping
pra comprar as roupas que a gente iria usar no jantar.
- E aí Luquilda? Você não vai contar pra a gente o que
aconteceu depois do nascer do sol lá no terraço? – Perguntou a Li.
- Desembucha de uma vez, amiga! Você e o Fernando ficaram ou
não? – Indagou a Bruna bem mais objetiva.
Depois de fazermos um pacto de segredo absoluto sobre o que
tinha acontecido naquele fim de noite, acabei contando tudo para elas. Fiquei
sabendo de um fato ainda mais surpreendente quando eu perguntei se o Sorocaba
havia ficado com alguma das duas.
- Qual é o mistério afinal? Vocês vão ou não vão me dizer o
que aconteceu? – Perguntei meio intrigada.
- Eu conto. – Começou a Bruna. – Nós 3 estávamos meio
bêbados, meio emocionados, sabe?
- Sim, mas e daí? – Indaguei impaciente.
- E daí é que a gente não se lembra de muita coisa. Mas eu
acho que ele acabou ficando com as duas. – Concluiu a Bruna.
- Com as duas? Eta lelê! Ô cabra macho retado! – Exclamei
assustada.
Caímos as 3 na risada. A gente ria que não parava mais
enquanto escolhia as roupas para o jantar.
- Ainda bem que nenhuma tem motivos pra ficar com ciúmes da
outra. Não é mesmo? – Perguntei sem conseguir parar de sorrir.
- Pois é, Luquilda. Nenhuma de nós vai poder ficar com ele
pra sempre. Então nada mais justo do que a gente aproveitar aquela que talvez
seja a única oportunidade que a gente teria pra ficar com ele. – Desabafou a Li.
- Mas vocês 3 foram até o final? – Interroguei ainda
sorrindo do fato tão inusitado.
- Não, Luzinha. Ficamos apenas nos beijos, abraços e amassos.
– Respondeu a Bruna.
- Já com você não parece ter sido só isso. Não é? – Indagou
a Li.
- Não, miga. Foi bem mais que isso. – Respondi.
- E daqui pra frente? Como vai ser se você tem namorado e
ele é noivo? – Perguntou a Bruna.
- Eu não estou pensando em como vai ser daqui pra frente,
Bruna. Estou pensando no hoje.
- E se ele quiser ficar com você hoje?
- Eu fico, Lid. Fico sem a menor dúvida.
- Você não tem receio de acabar se apaixonando por ele? –
Insistiu ela.
- Isso não tem a menor chance de acontecer. Eu sou uma
pessoa bastante racional e sei perfeitamente até onde eu posso ir. – Respondi
bastante segura.
Depois de comprar roupas, sapatos, bolsas e acessórios para
usar naquele jantar chiquérrimo e em tão maravilhosas companhias, fomos almoçar
e passamos o resto da tarde no salão de beleza do navio, arrumando cabelos,
unhas, maquiagens e tudo o mais que a gente tinha direito para chegar com
estilo naquele jantar.
Às 8 em ponto o Alan veio nos buscar para nos conduzir ao
restaurante. Aliás, que luxo era aquele restaurante? Era todo envidraçado,
produzindo uma invejável vista para o mar. Teto rebaixado com iluminação
individual em cada mesa. Para todos os lados se viam tapetes e quadros. Nas
mesas forradas por longas toalhas brancas cobertas por outras menores e azuis,
estavam colocados arranjos de flores naturais e castiçais de cristal. Tudo isso
harmonizado com louça de porcelana chinesa, taças e copos de cristal e talheres
de prata.
Eu, a Bruna e a Li nos olhávamos, como se não estivéssemos
acreditando que éramos nós mesmas ali naquele lugar.
Homens de paletó e gravata e mulheres exibindo seus vestidos
longos, jóias e saltos não paravam de chegar. A banda já se arrumava no palco
quando o comandante e mais 11 marinheiros vestidos a rigor adentraram o
restaurante acompanhados pela nossa querida dupla. O comandante veio nos
cumprimentar e os meninos se juntaram a nós e ao Alan que já estava na mesa com
a gente.
- Mas aqueles músicos que estão no palco não são os que
acompanham a dupla. – Observou a Li.
- Aqueles são os músicos de uma banda de baile que costuma
tocar nesse tipo de jantar. A gente não vai tocar com banda e sim com piano
violões violino e gaita. – Explicou o Rafael.
- Então vai ser só você e o Fernando? – Perguntou a bruna.
- O Rafael, eu e a nossa tecladista aqui. – respondeu o
Fernando segurando a minha mão.
- A abertura desse jantar será com uma valsa e o comandante
do navio é quem dança primeiro com todas as mulheres que estão no jantar.
Depois da valsa, todas podem dançar com o cavalheiro que escolherem, inclusive
com esses marinheiros que chegaram junto com o comandante. – Explicou o Alan.
- E hoje? Eu vou dormir imobilizado novamente? – Perguntou o
Ricardo em um tom de voz tão baixo que provavelmente só eu deveria ter ouvido.
- Você gostaria de repetir a experiência? – Perguntei em tom
igualmente baixo.
- Claro que sim. – Respondeu ele sorrindo.
- Que negócio é esse de dormir imobilizado? – Perguntou o Rafael,
que, não sei como, tinha conseguido escutar a nossa conversa.
O Ricardo me olhou interrogativamente como se quisesse saber
se poderia contar ou não. Só que naquele momento a Bruna, juntamente com o Rafael,
o Alan e a Li começaram os gritos de “conta! Conta! Conta!” e, não vendo outra
alternativa, eu concordei.. Ele então relatou:
- Ontem depois da farra lá no terraço, a gente foi para a
minha gabine. Foi tudo maravilhoso até que eu acordei e vi que não tinha como
eu me levantar da cama até que ela acordasse. Lá pelas 9 da manhã quando ela
finalmente acordou para o café, descobri que ela tinha me imobilizado com o
braço.
A Bruna e a Li caíram na gargalhada:
- Quer dizer que ela não falou prá você que é faixa preta de
judô? – Indagou a Li.
- Eu só falei isso pra ele hoje pela manhã, quando ele
descobriu que tinha dormido imobilizado para não fugir. – Expliquei sorrindo.
- E ele quer repetir a experiência! Daqui a pouco ele vai
querer que você lhe aplique uns 3 ou 4 golpes certeiros antes de dormir. –
Brincou o Rafael.
Naquele momento nossa conversa foi interrompida porque as
luzes do ambiente se apagaram, ficando acesas apenas as velas das mesas. A
banda então começou a tocar uma valsa chamada Danúbio Azul e o comandante
começou a dançar com todas as mulheres, iniciando justamente por nós 3 que
estávamos na mesa mais próxima do pauco e da mesa onde ele estava com os demais
marinheiros.
Depois de dançar com o comandante, eu fui dançar com o Ricardo
e o Rafael dançou metade de uma valsa com a Li e a outra metade com a Bruna. De
início a banda tocou várias músicas internacionais românticas e todo mundo caiu
na dança. O Rafael revezava dançando com as minhas amigas e eu então comentei
quando voltamos para a mesa:
- Como já dizia o velho Raúl: “Viva, Viva, Viva a sociedade
alternativa!”. Vocês duas tão me saindo excelentes sócias. Tão compartilhando
direitinho.
O Jantar começou a ser servido, mas boa parte da galera
ainda continuava dançando ao som da banda que tocava de tudo. Lá pelas 11 horas
o mestre de cerimônia chamou ao palco a dupla Fernando e Sorocaba.
Eles tocaram gaveta, previsão do tempo, praia brava, o que
CE vai fazer, lápis de cera, Madrid e, quando chegou a hora de tocar Férias em
Salvador, o Fernando me chamou ao palco para tocar e cantar com ele. Ele me
acompanhou ao piano para tocar homens e anjos enquanto cantava comigo. Por
muita insistência da Li, o Sorocaba tocou diz pra mim e Domingo de manhã que
não poderia faltar.
Depois de uma sequência de modão que a dupla tocou, o Ricardo
resolveu me homenagear tocando Te vivo do Luan Santana. Para retribuir a
homenagem de modo igualmente significativo pois a gente inevitavelmente se
separaria na tarde do dia seguinte, eu então fui ao piano para tocar e cantar I
Will Always Love you da Witney Hoston. A galera que estava no restaurante
aplaudiu de pé.
A dupla então tocou mais 3 músicas para terminar o show e a
banda do navio voltou a tocar.
Quando saímos do jantar o Rafael, as meninas e o Alan ainda
foram para a balada. Eu e o Ricardo preferimos não ir.
- Eu acho que ele prefere apanhar antes de dormir e por isso
não vai dar tempo de ir pra balada. – Brincou a Bruna.
Na noite daquele dia, nos amamos como se aquela fosse a
última noite das nossas vidas. Tudo muito intenso e cada segundo aproveitado ao
máximo.
- Não vai me imobilizar? – Perguntou ele.
- Não, hoje não. Quero sair daqui amanhã antes de você
acordar para não haver despedida.
- Nada disso. Vocês vão desembarcar com a gente em Santos e
de lá a gente vai até o aeroporto do Guarujá, onde vamos pegar o avião prá
Sampa. De Sampa vocês voam de volta prá Salvador. – Explicou ele.
- Quer dizer que a gente vai voar no tecoteco da dupla? –
Perguntei feliz e surpresa.
- Claro que sim. Suas malas já foram trazidas para cá e você
só vai sair daqui amanhã quando o navio aportar em Santos. – Respondeu ele
pacientimente.
- Então você vai dormir imobilizado para não fugir. –
Brinquei sorrindo enquanto colocava o meu braço na posição que o deixava
imobilizado.
Quando a gente finalmente pegou no sono, o dia já estava
amanhecendo e, prá aproveitar melhor o tempo, ele acabou me acordando antes das
8.
- Hoje não precisa a gente dormir mais do que duas horas.
Assim a gente aproveita melhor o tempo. – Justificou ele.
- Então vamos descer prá tomar o café da manhã e depois
podemos dar um mergulho na piscina. – Sugeri.
Ele achou melhor pedir o café no quarto mesmo e tratamos de
aproveitar mais esse tempinho enquanto chegava o café. Eu estava morrendo de
fome e o café era bastante farto, com uma enorme variedade de pães, bolos
frutas queijos biscoitos, etc.
- Vocês não tem nenhum show na Bahia por esses meses? –
Perguntei.
- Tem não. E você não pretende ir a Sampa nesse período
próximo?
- Tenho um convite para um campeonato em Sampa daqui a 2 meses.
Eu nem estava pensando em me inscrever nesse campeonato mas agora é um assunto
a ser pensado. – Respondi sorrindo.
As meninas o Rafael e o Alan nos encontraram na piscina e o
Alan tava louco prá me contar uma coisa hilária:
- Campeã, você não sabe o que aconteceu essa madrugada. –
Começou ele.
- Então me diga logo!
- As suas duas amigas resolveram levar o Sorocaba para a
gabine delas e juntaram as 3 camas para dormirem os 3 juntos.
- E aí? Rolou finalmente a suruba? – Perguntei já caindo na
rizada.
- Que nada. Enquanto elas se arrumavam no banheiro para
seduzir o príncipe, o grandão pegou no sono, completamente chapado, e não teve
quem o acordasse. – Concluiu ele completando a resenha.
Todo mundo caiu na gargalhada, inclusive as meninas e o
Sorocaba. Seria trágico se não fosse cômico o que estava acontecendo com
aqueles 3. Era uma espécie de dona Flor e seus 2 maridos às avessas. E o pior é
que os 3 estavam curtindo aquele triângulo amoroso.
Ficamos na piscina até quase meio dia, quando fomos todos
almoçar e depois do almoço fomos arrumar as nossas coisas e esperar o navio
aportar em Santos.
Assim que desembarcamos, já havia um carro esperando a gente
para nos levar até o aeroporto do Guarujá. Aí é que foi resenha. Nós
fotografamos o tecoteco por dentro e por fora, com e sem a dupla e, não
satisfeitas fizemos alguns vídeos durante o vôo. Os vídeos ficaram muito
engraçados, porque os meninos começaram a fazer palhaçada para fazer com que o
vôo ficasse menos tenso, pois uma turbulência pegou a gente no ar e o avião
balançava que nem rede. Com medo eu me encolhia toda e fazia cara de assustada
a cada sacudida do avião.
- Mas uma faixa preta com esse medo todo? – Perturbou o Rafael.
- O tatame não balança, não corre o risco de despencar das
alturas e, que eu me lembre, não me inscrevi para nenhum campeonato no céu. –
Respondi ainda tremendo.
- Hei! Calma que vai passar. A gente já está quase chegando
em Sampa. – Ponderou o Ricardo tentando me acalmar.
Vendo que o avião começava a descer, fui me acalmando até
sentir que o tecoteco já havia tocado a pista e estava desacelerando para
finalmente parar. Quando a porta se abriu, quem disse que eu tive pernas para
descer? Foi preciso que o Ricardo me pegasse no colo prá me colocar em terra
firme.
- Ta tudo bem agora. Você quer tomar uma água ou qualquer
outra coisa? – Perguntou o Ricardo me abraçando forte.
- Uma água pode ser. – Respondi recuperando a voz.
Fomos até um café do aeroporto e tomamos uma água enquanto o
Alan, o Sorocaba e as meninas resolviam a questão da bagagem, inclusive já
faturando a nossa para Salvador.
- A que horas é o vôo de vocês? – Perguntou o Fernando.
- Às duas da madruga. Esse foi o horário mais barato que a
gente encontrou. – Respondi.
- Mas eu não vou deixar você ficar nesse aeroporto esperando
durante 8 horas para pegar um vôo. – Retrucou o Fernando.
Quando reencontramos o restante do pessoal, eles já tinham
decidido que iria todo mundo para a casa do Rafael e que ele faria um churras
para a turma da Bahia.
- Vai ser bom para a gente que vai ter a oportunidade de
conhecer a casa do Rafael. – Observei rindo da alegria das meninas com aquela
notícia.
- Vai ser bom porque eu vou passar mais 8 horas com você. –
Completou o Ricardo.
- E você não vai ver a sua noiva? – Perguntei.
- Só depois que você embarcar para Salvador. E se você vier
mesmo participar do campeonato que você me falou, vou estar lá assistindo a sua
luta e torcendo por você.
- Vou ser medalha de ouro nesse campeonato, por você e prá
você. – Respondi com segurança.
O churrasco foi maravilhoso. Comemos, bebemos, cantamos,
tocamos e, claro, as meninas filmaram e fotografaram a casa inteira.
Os meninos foram deixar a gente no aeroporto à meia noite.
Foram longas as despedidas até que finalmente a gente entrou no avião. Deixamos
prá trás Sampa, lá ficaram os meninos e nós levamos nas malas além da saudade,
muitas recordações e a certeza de que tudo saiu melhor que a gente imaginava
porque a gente acreditou no nosso sonho e ainda mais, tivemos muita coragem
para correr os riscos que a gente teve que correr para valer a pena viver tudo
o que a gente viveu.
por Libia Patricia
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