VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?
 “Oi, Meu nome é Stacy. Tenho 22 anos.
Convivo com a morte desde criança.
Ela sorri pra mim desde que me lembro por gente.
Quando nasci, fui diagnosticada com uma grave anomalia cardíaca, que poderia comprometer seriamente minhas chances de vida.
Crescendo em meio a hospitais, balões de oxigênio e seringas, eu tentava não demonstrar todo o meu medo.
Mas na minha mente, não podia ouvir sequer o cantar de pneus que já ficava simplesmente mortificada por dentro. No fundo, eu sempre tive medo de tudo. A morte me visitava, mas nunca ficava de vez, e esses sustos em forma de crises, cada vez que eu tinha, mais assustada eu ficava. Porque eu queria viver, não morrer.
Medo de me separar das pessoas que mais amava e fazê-las sofrer por minha causa era uma sentimento constante.
Ir à escola era desafiador e prazeroso ao mesmo tempo.
Como ficava mais tempo na cama do que brincando como uma criança normal,  desenvolvi uma paixão muito grande por livros , especialmente por romances. É como se eu mergulhasse naquele mundo e me tornasse a própria heroína do livro, que vencia a tudo e a todos em nome do amor e acabava num happy end , ao lado do príncipe encantado.
Mas sabemos que a vida real não é bem assim.
E assim, de tanto ler, acabei me tornando uma pessoa medrosa e com uma visão distorcida sobre a vida e o amor. Amor?  Ah, esse eu sabia que não era pra mim. Não iria acontecer pra mim.
Dizem que anjos não existem, mas , acredite, eu conheci um.
Aos 15 anos, um lindo menino veio estudar na minha escola, precisamente na minha turma. O nome dele era Brian. Ele tinha fartos cabelos pretos e os olhos mais pretos que já vi na minha vida. E foi assim, que, com sua gentileza e atenção, nos tornamos melhores amigos. Dizíamos que éramos o anjo um do outro. Eu ajudava ele em história, redação e português,  e ele me ajudava em matemática e em muitas outras tarefas que para mim eram árduas, tipo carregar a própria mochila.
Quando eu tinha crises, ele estava ali pra segurar minha mão, Se eu estava triste, ele me levava  para uma caminhada até o cais para ver o pôr-do-sol
E assim o segundo ano do ensino médio começou. Vieram as férias de verão, e foi na colônia de férias que ele me mostrou que eu podia superar meus limites e não precisava viver com  medo o tempo todo. Então ele me convenceu a andar a cavalo, velejar e fazer trilha, coisas que eu nunca imaginei na minha vida.
E foi assim ao luar , nessas férias, que juramos nunca deixar de ser o anjo um do outro, nos amar e nos cuidar pra sempre.
O terceiro e último ano do ensino médio estava terminando , e ambos estávamos ansiosos pra chegada  do baile.
Aos dezessete anos, Brian se tornava a cada dia minha companhia inseparável.
Me ensinou a andar de bicicleta, jogar vídeo game ,gude, e boliche. Minha mãe ficava louca de preocupação.
Brian me fez gostar de mim mesma, do jeito que eu era, e não ficar me comparando com as outras meninas. Ele me beijava e depois perguntava sorrindo “não percebe o quanto você é linda?”
Depois de todos os preparativos feitos e vestido comprado, meu coração “anormal” já dava sinais de que não tinha certeza se eu estaria viva no dia do baile .
Um mês antes do baile, fui internada e dessa vez os médicos foram claros: eu não poderia mais esperar , precisava de um transplante o quanto antes.
Foi quando, numa das visitas do Brian, eu disse a ele que embora o amasse, não deveríamos mais nos ver, pois eu estava impedindo dele ser feliz com outra pessoa (saudável)
-Prometa que vai se cuidar, que vai ficar bem- disse eu, com  voz fraca
- Nunca mais repita isso, Stacy!
- Brian, eu não tenho esse direito
- shiiiit, nem uma palavra mais sobre isso
Uma semana antes da formatura, eu já estava em casa, tomando remédios fortíssimos e controlados, me sentindo melhor. À espera de um milagre, à espera de um doador.
Eu estava sonhando com esse momento. Eu e Brian completariamos a maioridade no mesmo mês da formatura, então nossos pais resolveram fazer uma grande festa.
Depois da colação de grau, o momento mais esperado : a valsa. Dançei com meu pai e com o Brian.
Ele sussurrou baixinho no meu ouvido : “minha gata, você está deslumbrante, 18 vezes mais linda, parabéns”
E eu respondi “parabéns pra você também”
Naquele momento, nossos corpos coladinhos, sentindo o calor um do outro, descobrimos então o significado do amor. Èramos namorados há tanto tempo sem saber.
Então fomos pro local da festa. Som ao vivo, decoração azul e rosa, afinal era aniversário de um garoto e uma garota, tudo perfeito.
Nossos pais, depois de duas taças, começaram logo a fazer discursos emocionados , e a gente ria muito.  Por essa noite, consegui até esquecer que os meus dias estavam contados.
Eu não podia dançar por muito tempo, mas da minha cadeira tentava curtir o embalo da música.
Nós tomamos shampagne pela primeira vez e brindamos festivamente nossa maioridade e nossa formatura.
A festa foi findando, os convidados indo embora, nós dois a beira da piscina admirando a noite estrelada, recebendo uma leve brisa que soprava em nossos rostos e nos acariciava.
Foi quando ele disse: “vamos dar um rolé?”
- Rolé? Desde quando você tem carro? – perguntei eu, admirada
- Essa era a surpresa que tinha pra você hoje: meu pai me deu um carro de presente- explicou Brian, todo empolgado
- será que a galera não vai achar ruim?
- que nada, vem comigo- convidou ele, me dando a mão
Então, ele dirigiu até o cais, e no som do carro um cowntry antigo meio melancólico tocava.
Ele dirigia cantando e quando parou, aqueles olhos negros me encararam e ele disse:
- aceita ser minha namorada?
-será que eu já não sou?
- sim, você é, mas precisamos oficializar o negócio. Tem uma coisa aqui pesando no meu bolso... – brincou ele
E tirou do bolso um lindo anel de compromisso com o nome dele gravado.
- Oh Brian , não sei nem o que dizer – respondi engasgada de emoção, já colocando o anel no meu dedo
- só diga que sim – disse ele com um olhar implorativo
- sim, sim e sim- disse eu
E então nos beijamos demoradamente, como se estivéssemos descobrindo um ao outro somente agora.
- não sei por quanto tempo estarei com você, mas enquanto eu existir, seremos o anjo um do outro, sempre
- então agora que você é de maior e minha namorada, eu também de maior e motorista... eu só quero uma coisa, e ela está bem aqui na minha frente. Não há nada que eu queira mais
De repente, a paixão falou mais alto, e nos entregamos ali mesmo no carro. Foi, como posso dizer,diferente de tudo que eu já tinha lido. Foi engraçado, desajeitado, dolorido, mas valeu a pena. Quando a gente ama, a gente faz tudo pela pessoa. Ambos queríamos muito.
O dia amanheceu no cais, a melhor noite da minha vida,acordei nos braços de Brian, toda suada e cabelo desgrenhado, meio vestida e meio desnuda. O sol nos lembrava de voltar pra casa.
Uma semana depois, Brian viajou pra visitar os avós. Ele viajou e eu piorei meu estado de tal forma que fui parar no hospital.
Quis a vida que o Brian fosse realmente meu eterno anjo, que veio pra morar dentro de mim.
Duas semanas depois , na volta pra casa, ele e a família sofreram um sério acidente causado por um animal na pista. Brian foi o unico que morreu, pra meu desespero. Nos documentos dele dizia que ele era doador de órgãos, e quando a polícia ligou pro hospital onde eu estava, mandaram trazer urgente. Feitos os exames, incrivelmente éramos compatíveis e o transplante foi feito.
Brian agora vive literalmente no meu coração agora, e suas lembranças habitam minha memória pra sempre.
Estou curada graças a ele.
Hoje sou feliz e não sinto mais tanto medo. Conheci outro anjo um ano depois.
Um anjo vai e outro vem, mas Brian sempre será especial pra mim ..

by Lidice Cambuí


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