SURPRESAS DA VIDA
por Lídice Cambuí
Meu nome é Narciso Poloskviki. Sou professor em várias faculdades. Como sociólogo, sou um profundo estudioso do comportamento social humano. Quero compartilhar com vocês uma história real contada pela personagem principal, uma história que prova que o meio nem sempre determina o homem, e vice e versa.
Fiquei chocado quando minha melhor aluna Mirtes veio me contar sua historia num dia qualquer, e eu nunca mais tive um dia qualquer, pois sua narrativa me impressionou de tal forma que nunca mais pude esquecer.
Ela me contou porque as vezes estava triste, as vezes chegava um pouco atrasada nas aulas, e porque se esforçava a concluir seu curso, apesar de tantas dificuldades, algumas já superadas.
Eis o seu depoimento:
“Professor, não é por acaso que estou aqui! Sinto orgulho de tudo que conquistei, sei que cheguei aonde estou com honra e por merecimento. Mas não foi nada fácil.
Se hoje sou uma pedagogoa , e tenho um bom emprego num órgão público, saiba que até os meus os 8 anos, a vida sorriu pra mim pela última vez, e custou a voltar esse sorriso.
Vivia com meus pais numa cidadezinha aqui próxima, e vivia consideravelmente bem. Ia pra escola, brincava e tinha bastante contato com a natureza. Uma típica vida de interior, muito simples e humilde, a qual cercada por minha família e amigos, não era nada ruim.
Mas algo terrível havia de assolar nossa família, Minha mãe vinha traindo meu pai há algum tempo, e este, coitado, típico homem do interior, não suportou e resolveu lavar a honra com suas próprias mãos. Num impulso de ciúme , ele esfaqueou minha mãe.
Nessa hora eu já dormia eu meu quarto com minha irmã menor, quando meu pai chegou em casa bêbado, coisa que não era costumeira do feitio dele. Chamou minha mãe aos gritos, com os quais eu despertei, mas não tive coragem de sair do quarto. Eu tinha apenas 8 anos. Minha mãe respondeu a altura, gritando e berrando que ele tava dando mau exemplo pros filhos. Através da cortina de tecido (naquela época os quartos não tinham portas e trancas ) , eu , com os olhos arregalados, esperava o desfecho daquela discussão. Mas não haveria de ser só discussão. Na terceira vez que ela o chamou de alcóolatra, ele foi até a lata onde minha mãe guardava os talheres, e pegou a faca de cortar carne.
Meu coração quase saía pela boca, e meus olhos pareciam sair da órbita. Suando frio, observei tudo, ele partiu pra cima dela e desferiu dois golpes no coração , chamando-a de “puta safada” várias vezes. Meus irmãos ainda bem não acordaram nesse momento, só eu tive a desgraça de assistir a destruição da nossa família ao vivo e a cores. Quando o sangue começou a espirrar e ela parou de gritar, ele sentou no chão perto dela , e chorou muito. Eu chorava baixinho, torcendo pra ele não ouvir nada. Num dado momento, seu pranto se calou e ele olhou pros quatro cantos com muito medo. E foi então que saiu de casa pra sempre. Eu, acuada, chorando e tremendo, entre cochilos assustados no chao do quarto, esperei o dia amanhecer para poder pedir socorro. Assim que o galo, meu primeiro e único relógio na época , cantou, saí do quarto, passei pela sala onde estava o corpo da minha mãe muito perfurado, e corri pela rua pra chegar na casa da minha avó, mas quem disse que eu falava coisa com coisa? Só gritava “minha mãe” “minha mãe”. Minha vó e meus tios correram então e viram o que tinha acontecido. Aos poucos, foram me explicando o que tinha acontecido, pois eu, muito criança ainda, fiquei em estado de choque, só ficava com o olhar perdido vendo o tempo passar. Sim, minha mãe estava morta e meu pai se tornou um fugitivo da polícia.
Muitos anos depois, quando ele deu noticias pra família, ele estava numa cidade bem distante e já tinha constituído outra família.
Eu e meus dois irmãos fomos então morar com nossa avó, que nos criou da melhor maneira que ela pode. Meus tios deram muito apoio também. Repeti de ano, mas não desisti de estudar. Aos 18 anos, encontrei pessoas bondosas que me ajudaram financeiramente a me mudar pra uma cidade maior onde poderia continuar meus estudos. Conheci pessoas bondosas que me deram abrigo temporário na cidade grande, e assim consegui terminar a graduação, começei a trabalhar como professora e aluguei um quartinho pra mim. Nesse meio tempo, fiz um curso de língua de sinais, o que abriu as portas do mercado de trabalho no setor da educação inclusiva.
Com o tempo, aluguei uma casinha um pouco melhor.
E assim, trabalhando com educação especial, me especializei na formação de professores , de forma que conseguia me sustentar razoavelmente.
E quando apareceu essa oportunidade de fazer essa pós em sociologia, professor, não pensei duas vezes. Quero crescer na vida, sabe.Sou solteira, e sou razoavelmente feliz, apesar de tudo.
Meus demônios internos ainda me pertubam, e eu confesso que ainda faço terapia, o que me ajuda muito no meu dia a dia. Meus sonhos com aquele dia fatídico não vão cessar tão cedo, mas não vou me amedrontar. Sozinha na vida, tive que construir tudo sozinha com o meu próprio esforço. Se, como dizem, quanto maior o buraco, maior a construção, então devo ser então uma construção imensa. Sou uma construção que não tem fim, a cada dia acrescento um tijolinho na formação do meu ser. E se a vida assim se apresentou a mim, que assim seja.
Obrigada por me ouvir, professor”
E assim, boquiaberto, recebi o trabalho das mãos da minha melhor aluna e a vi sair da sala, deixando comigo admiração e reflexão eternas.
PS: essa é uma história verídica, e o nome da personagem foi mudado.
por Lídice Cambuí
Meu nome é Narciso Poloskviki. Sou professor em várias faculdades. Como sociólogo, sou um profundo estudioso do comportamento social humano. Quero compartilhar com vocês uma história real contada pela personagem principal, uma história que prova que o meio nem sempre determina o homem, e vice e versa.
Fiquei chocado quando minha melhor aluna Mirtes veio me contar sua historia num dia qualquer, e eu nunca mais tive um dia qualquer, pois sua narrativa me impressionou de tal forma que nunca mais pude esquecer.
Ela me contou porque as vezes estava triste, as vezes chegava um pouco atrasada nas aulas, e porque se esforçava a concluir seu curso, apesar de tantas dificuldades, algumas já superadas.
Eis o seu depoimento:
“Professor, não é por acaso que estou aqui! Sinto orgulho de tudo que conquistei, sei que cheguei aonde estou com honra e por merecimento. Mas não foi nada fácil.
Se hoje sou uma pedagogoa , e tenho um bom emprego num órgão público, saiba que até os meus os 8 anos, a vida sorriu pra mim pela última vez, e custou a voltar esse sorriso.
Vivia com meus pais numa cidadezinha aqui próxima, e vivia consideravelmente bem. Ia pra escola, brincava e tinha bastante contato com a natureza. Uma típica vida de interior, muito simples e humilde, a qual cercada por minha família e amigos, não era nada ruim.
Mas algo terrível havia de assolar nossa família, Minha mãe vinha traindo meu pai há algum tempo, e este, coitado, típico homem do interior, não suportou e resolveu lavar a honra com suas próprias mãos. Num impulso de ciúme , ele esfaqueou minha mãe.
Nessa hora eu já dormia eu meu quarto com minha irmã menor, quando meu pai chegou em casa bêbado, coisa que não era costumeira do feitio dele. Chamou minha mãe aos gritos, com os quais eu despertei, mas não tive coragem de sair do quarto. Eu tinha apenas 8 anos. Minha mãe respondeu a altura, gritando e berrando que ele tava dando mau exemplo pros filhos. Através da cortina de tecido (naquela época os quartos não tinham portas e trancas ) , eu , com os olhos arregalados, esperava o desfecho daquela discussão. Mas não haveria de ser só discussão. Na terceira vez que ela o chamou de alcóolatra, ele foi até a lata onde minha mãe guardava os talheres, e pegou a faca de cortar carne.
Meu coração quase saía pela boca, e meus olhos pareciam sair da órbita. Suando frio, observei tudo, ele partiu pra cima dela e desferiu dois golpes no coração , chamando-a de “puta safada” várias vezes. Meus irmãos ainda bem não acordaram nesse momento, só eu tive a desgraça de assistir a destruição da nossa família ao vivo e a cores. Quando o sangue começou a espirrar e ela parou de gritar, ele sentou no chão perto dela , e chorou muito. Eu chorava baixinho, torcendo pra ele não ouvir nada. Num dado momento, seu pranto se calou e ele olhou pros quatro cantos com muito medo. E foi então que saiu de casa pra sempre. Eu, acuada, chorando e tremendo, entre cochilos assustados no chao do quarto, esperei o dia amanhecer para poder pedir socorro. Assim que o galo, meu primeiro e único relógio na época , cantou, saí do quarto, passei pela sala onde estava o corpo da minha mãe muito perfurado, e corri pela rua pra chegar na casa da minha avó, mas quem disse que eu falava coisa com coisa? Só gritava “minha mãe” “minha mãe”. Minha vó e meus tios correram então e viram o que tinha acontecido. Aos poucos, foram me explicando o que tinha acontecido, pois eu, muito criança ainda, fiquei em estado de choque, só ficava com o olhar perdido vendo o tempo passar. Sim, minha mãe estava morta e meu pai se tornou um fugitivo da polícia.
Muitos anos depois, quando ele deu noticias pra família, ele estava numa cidade bem distante e já tinha constituído outra família.
Eu e meus dois irmãos fomos então morar com nossa avó, que nos criou da melhor maneira que ela pode. Meus tios deram muito apoio também. Repeti de ano, mas não desisti de estudar. Aos 18 anos, encontrei pessoas bondosas que me ajudaram financeiramente a me mudar pra uma cidade maior onde poderia continuar meus estudos. Conheci pessoas bondosas que me deram abrigo temporário na cidade grande, e assim consegui terminar a graduação, começei a trabalhar como professora e aluguei um quartinho pra mim. Nesse meio tempo, fiz um curso de língua de sinais, o que abriu as portas do mercado de trabalho no setor da educação inclusiva.
Com o tempo, aluguei uma casinha um pouco melhor.
E assim, trabalhando com educação especial, me especializei na formação de professores , de forma que conseguia me sustentar razoavelmente.
E quando apareceu essa oportunidade de fazer essa pós em sociologia, professor, não pensei duas vezes. Quero crescer na vida, sabe.Sou solteira, e sou razoavelmente feliz, apesar de tudo.
Meus demônios internos ainda me pertubam, e eu confesso que ainda faço terapia, o que me ajuda muito no meu dia a dia. Meus sonhos com aquele dia fatídico não vão cessar tão cedo, mas não vou me amedrontar. Sozinha na vida, tive que construir tudo sozinha com o meu próprio esforço. Se, como dizem, quanto maior o buraco, maior a construção, então devo ser então uma construção imensa. Sou uma construção que não tem fim, a cada dia acrescento um tijolinho na formação do meu ser. E se a vida assim se apresentou a mim, que assim seja.
Obrigada por me ouvir, professor”
E assim, boquiaberto, recebi o trabalho das mãos da minha melhor aluna e a vi sair da sala, deixando comigo admiração e reflexão eternas.
PS: essa é uma história verídica, e o nome da personagem foi mudado.
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