TRES CASAMENTOS E UMA HISTÓRIA
por Lídice Cambuí

Só me lembro do olhar dela. Ela não olhava pra mim como olhava para os outros alunos. Era muito diferente. Eu tinha apenas 15 anos, e aquela mulher foi o primeiro passo em direção ao meu precipício. De repente a professora “gostosa” como eu a chamava, me convidou à sua casa e me mostrou o mundo antes oculto pra mim: sexo, drogas e principalmente muita bebida. Eu me sentia um bad boy desafiando o perigo. Achava tudo o máximo. Me tornei a pessoa da qual hoje me envergonho. Começei a mentir muito em casa, chegava altas horas, sem pensar nas conseuquências. Com o dobro da minha idade, ela me fazia sentir praticamente um super-herói. Eu não tinha a mínima noção da pedofilia implicitamente envolvida. As consequências emocionais vieram bem depois. Do nada, ela terminou comigo, me jogou fora como um chiclete mascado. Inconscientemente, minha reação a essa dor foi ficar ainda mais rebelde e boêmio. Foi daí em diante que perdi a noção do meu valor e do meu amor próprio.

Até que aos 18 anos, conheci ela, a garota que haveria de ser a minha primeira esposa. Meus pais  não se opuseram ao namoro, até que, quatro anos depois, ela engravidou.  Minha vida mudou de ponta a cabeça. Casamento às pressas e enxoval urgentemente providenciados. Minha filha nasceu linda e maravilhosa, e parecia que a vida ia se aquietar dali em diante. Eu tinha meu próprio negócio pertinho de casa, e minha esposa fazia um bico aqui e outro acolá, depois começou a ser secretária de um advogado. Dava pra tocar a vida, e eu achava que estava tudo entrando nos eixos, até que um dia, bem, estava eu no meu trabalho, quando um amigo chegou muito agoniado:
-        cara, tenho que te contar uma coisa, mas só porque sou seu amigo
-        o que foi, cara?
-        Eu vi sua mulher com outro numa festa ontem. Tenho certeza que era ela.
-        O que???

Não esperei ele falar mais nada. Fui pra casa e aguardei ela chegar. Como ela não chegava, aliás ela vinha chegando tarde ultimamente, eu liguei uma ultima vez para ela . Estava na casa da mãe. Corri até lá.
Ela me recebeu como se já se soubesse o que meus olhos vermelhos e injetados denunciavam:

-        Pedro , o que você tem?
-        È verdade, Roberta?
-        Do que você tá falando?
-        Você tem outro? Como pode fazer isso?
     Seu suspiro provou que eu acertei na mosca:
      -        tá Pedro! Ok você venceu. O nome dele é Alison ok. Estamos juntos há 3 meses.

Num acesso de fúria eu a empurrei, peguei minha filha de 1 ano e 9 meses  e fui em direção ao meu carro. Acelerei pra dar partida. Minha filha chorava. Ela correu até a porta do carro e segurou meu rosto com as mãos. Eu a empurrei de novo e dessa vez ela cai ao chão, na calçada da casa da mãe dela. E assim, acelerei o carro e forçadamente fui embora da vida dela para sempre. Passei mal, fui pro hospital, me embebedei várias vezes, e várias vezes saí por aí só para pensar em como seria bom se a morte me levasse.

De início a Roberta fugiu durante três semanas com o tal , depois voltou e começou a morar com ele. O tempo passou e eu precisava fazer algo além de divorciar. Decidi estudar fora, numa cidade longe, já que não conseguia trabalhar direito. Precisava desse recomeço, pois o escândalo na cidade havia sido grande, visto eu ser bastante conhecido. Eu estava precisando dar esse tempo pra mim mesmo. No começo foi muito dificil morar sozinho, a solidão era esmagadora. Começei a estudar bastante e logo fui aprovado em jornalismo. Durante esse tempo estudando fora, minha ex tentou voltar algumas vezes , mas eu estava decidido a dizer não, mesmo de coração partido. Tudo aquilo simplesmente arremessava minha auto-estima e amor-próprio em alguma galáxia inalcançavelmente distante, e sem chance de retorno.

Divórico na mão, reencontrei pela internet uma garota da minha cidade natal, e começamos a nos comunicar. Num ímpeto, voltei a minha cidade e a pedi em namoro. Menos de um ano depois nos casamos, e ela foi morar comigo na capital, onde ambos fazíamos faculdade. Eu não tinha consicência do quanto a Taíse era mimada e maquiavélica, pois eu era apenas uma parte do seu plano para sair da casa dos pais.  E, consequência do tratamento que a professora me dava, o ciclo se repetia:  como sempre, eu era tratado apenas como objeto sexual e empregado doméstico. Me submetia a tudo, vivia em função dela, apoiando nos seus estudos e assim por diante. Mas quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?  Prestes a completar dois anos de casamento, chego em casa do trabalho e ela estava arrumando as malas. Parei boquiaberto, ouvindo ela choramingar :
-  não aguento mais! Preciso correr atrás dos meus objetivos! Adeus,e não se preocupe, por enquanto vou morar na casa da Fabiana ate as coisas se ajeitarem.

Pegou o elevador e partiu. Achei que era mais uma das crises dela.
Eu fiquei ali, parado , quase em estado catatônico por alguns dias. Tinha vergonha de contar pra minha família meu segundo fracasso na vida. Fiquei ali naquele apartamento,  quase sem comer , praticamente sem dormir. Ate que, uns dez dias depois, meu pai apareceu e sacou de cara toda a verdade.
Aí sim minha ficha caiu.
Meu mundo de novo de ponta a cabeça tinha que se acostumar novamente com a realidade de que eu tinha sido traído pela segunda vez.
Não me acostumei, e fui ao fundo do poço pela segunda vez. Eu tentava trabalhar e tal, mas o resto do tempo era só esbórnia. Os colegas , querendo me consolar, sempre me incluiam nas farras. Fui ao submundo e voltei, conheci de tudo, todo tipo de ambiente que se possa imaginar. Me perdi de mim mesmo. Meu segundo divórcio, era demais pra mim.
E por ironia da vida, numa dessas viagens a minha cidade natal, conheci uma garota que parecia ser diferente de todas as outras. Pessoa madura e sofrida na vida, parecíamos a tampa e a panela.
Nos casamos também em um ano e meio, pois ela engravidou.
Eu vi naquela garota todas as esperanças de reconstruir minha vida.
Hoje completamos três anos de casamento. Temos uma filha linda. Mas ainda não encontrei essa tal felicidade que dizem por aí que existe. Hoje não é mais o fantasma da traição que me assombra e sim o do ciúme.
Me encontro escravo do meu terceiro casamento. Estou preso a alguém que não me trai, porém me sufoca. Uma força moral e o amor pela minha filha me fazem suportar suas crises de ciume obsessivo. Já não me surpreendo em ser mandado embora de casa e depois ser chamado de volta. Cada passo meu é monitorado, só posso fazer estritamente o que ela quer, e ainda sim não consigo dizer não.
Estou preso a esse casamento até quando Deus quiser.
Não tenho nenhuma força pra reagir, e sei que devo tudo isso à armadilha que caí quando era adolescente. Três casamentos, duas filhas e uma história pra contar.

PS: essa história é baseada em fatos reais, apenas os nomes das personagens foram mudados












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