A  GAROTA DE PROGRAMA
Por Lidice Cambuí

Essa pode parecer mais uma daquelas histórias clichês que os compositores tanto usam nas suas músicas de sofrência, mas não é.  Aconteceu comigo.
Me chamo  Eliane, sou garota de programa, mas nem sempre fui assim. Uma vez a vida me deu uma chance de não repetir meus erros, mas eu desperdicei.
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas no caso do meu ex marido Felipe, isso não foi verdade.  O coitado recebeu não dois raios quaisquer, e sim duas descargas de alta voltagem suficiente para matá-lo , não fosse a sua força interior. E eu o admiro muito por isso. E sei que ele não merecia passar por tudo que passou. Sei que meu remorso nunca vai passar.
Bem, não que eu queira justificar, mas me tornei  garota de programa pela força das circunstâncias ao 12 anos. Minha família era desestruturada, meu pai alcoólatra e minha mãe trabalhava o tempo todo, quase não a víamos coitada, e o que ganhava ainda não dava para sustentar quatro filhos.
Eu, como filha mais velha, de repente não agüentei mais aquela situação. Tentava ajudar trabalhando de catadora no turno oposto ao da escola , mas não dava. Começei  trocando pequenos favores sexuais  com os colegas de escola em troca de produtos alimentícios . Os colegas, por sua vez, foram fazendo a propaganda boca a boca com os rapazes do bairro, que  me assediavam nas redondezas da escola . Quanto mais alto o favor, maior era o preço.
Começei a trazer coisas para casa que antes não podíamos nos dar ao luxo de ter: comida decente, roupas para as crianças. Minha mãe achava que eu ganhava na reciclagem. E atordoada para cuidar de tantas crianças, não teve a curiosidade de investigar a fonte de tudo aquilo.
Modéstia à parte , eu tinha talento e pra ser sincera, fui gostando da vida que levava. Aos 18 anos, terminei o ensino médio e disse aos meus pais que iria morar fora pra estudar. Mesmo eles  preocupados, permitiram.  Assegurei que lhes enviaria dinheiro todos os meses.
Fui pra cidade grande com duas colegas que tinham o contato de um cara que prometeu nos  agenciar, em troca de sustento e muita grana.
Nós fomos, mas a coisa não foi como pensávamos. O dinheiro não era lá essas coisas, e como eu ajudava meus pais, sobrava muito pouco pra mim. A solidão depois da noitada era devastadora.
Decidi retornar a minha cidade, mas não era fácil ganhar a vida de forma “honesta”. Não dava pra manter o estilo de vida que eu tinha na capital.
E foi nesse período turbulento que conheci o Felipe.  Um dia na porta de um bar , o garçom veio me oferecer um drink em nome de um certo rapaz sentado na mesa 30. Aceitei, agradeci, e quando penso que não, o dito cujo rapaz ergue a taça de longe p mim. Procurei permanecer em seu campo de visão, quando de repente o garçom  vem novamente , dessa vez para dizer que o mesmo cavalheiro me convidava a sentar em sua mesa. E já foi me conduzindo para lá.
-Outro drink? -  ele levantou-se  e cumprimentou beijando minha mão
- aceito-
Ele puxou a cadeira e me fez sentar a sua frente.
- meu nome  é Felipe, e tenho lhe observado desde que cheguei. Tinha certeza de que aguardava alguém , mas como passou o tempo e você continuava sozinha, resolvi lhe oferecer o drink. Espero que não se ofenda com a minha ousadia de convidá-la
- meu nome é  Eliane-  falei, baixando os olhos.
Eu mal podia encará-lo, ele era muito diferente dos caras com quem havia estado. Pela primeira vez, sentia que um homem não me olhava como uma mercadoria.
Começamos a conversar,  e parecia que nos conhecíamos a vida inteira.
Próximos encontros, e as confissões vieram a tona: ele havia sido traído pela ex mulher. Ele flagrou em sua própria cama  ao chegar de viagem. Perdeu a cabeça, apanhou um revolver e saiu correndo atrás do cara, que conseguiu subir no telhado , apenas de cueca, e de lá conseguiu escapar ou o Felipe teria feito a grande besteira da vida dele. Após o escândalo, a mulher confessou que já não o amava há tempos, mas como ele não percebia ou fingia que não percebia, ela resolveu tomar uma atitude drástica para por um fim nesse relacionamento que já não a satisfazia.
O choque de realidade muito fez o Felipe sofrer.
Da minha parte, confessei a ele minha vida errante e errada.
Para minha surpresa, ele disse que o meu passado já não importava, se eu realmente quisesse ficar com ele. Senti uma imensa gratidão por aquele homem,  gratidão que foi se transformando em paixão.
Nos casamos e tivemos três filhos, duas meninas e um menino.
Tudo parecia estar  indo muito bem, eu já administrava uma pequena loja de confecções que ele havia me ajudado a abrir. O Felipe parecia gostar muito de mim, me tratava muito bem, e eu aprendi a gostar dele.
Mas a vidinha de antes voltou a martelar na minha cabeça feito sino, vozes pareciam me chamar pra isso e eu fingia não ouvir. Um dia, um representante comercial  veio até a loja e então foi mais forte que eu. Começei  a inventar desculpas pro Felipe para poder chegar tarde, dizia que ia fazer trabalho da faculdade com as colegas , ou que ia na casa de alguma amiga.
Até que um dia a casa caiu. Alguém contou pro Felipe , que por sua vez  veio até mim atordoado chorando querendo respostas. Nem eu mesmo acreditava no que tinha acabado de fazer e ainda com alguém como o Felipe. Como pude ferir alguém que já foi tão ferido? Não tive alternativa senão confessar toda a verdade. Era o mínimo que podia fazer . Era o mínimo que eu devia ao Felipe depois de tudo que ele fez por mim: A VERDADE.
Tentei permanecer na cidade, mas ficou insustentável diante da depressão em que o Felipe mergulhou.  Não dava pra suportar vê-lo assim.  Minha cabeça tão confusa em parafuso já não me deixava ser uma boa mãe.
Então , com o coração sangrando, bati na porta do Felipe e entreguei  a ele os três pedaços do meu coração que batem fora do meu corpo.  Ele não quis acreditar naquilo e ficou sem reação. Antes que ele protestasse, eu virei as costas e fui embora antes que me arrependesse.
Fui morar em outra cidade a convite do Vicente, mas ele foi só o primeiro dos muitos caras que passaram pela minha vida e pela minha cama.
Não me acostumei a acordar todo dia e ver o mesmo rosto dormindo ao meu lado. Ainda não entendi por que sou assim, mas assim é.
Deixei meus três filhos com o Felipe, pois sei que ele é a melhor pessoa para educá-los. Não sou exemplo de vida pra ninguém . Não quero ser uma influência negativa para meus filhos, principalmente as meninas
Se no início eu fui garota de programa  por necessidade,  hoje eu já nem sei  bem o porquê. Eu não queria ser garota de programa, mas ao mesmo tempo sentia uma atração inexplicável por esse estilo de vida. Não se explicar, mas é mais forte que eu.
Hoje eu choro, mas são lágrimas negras, que me levam pro passado que não vai voltar.Lágrimas negras, tomaram o lugar do brilho em meu olhar e em seu lugar só ficou a culpa, um horrível sentimento de culpa. Lágrimas com maquiagem mancham minha máscara, a máscara que uso para disfarçar minha instável personalidade.
E  assim vou prosseguindo nessa minha vida errante e errada, sabendo que nunca mais poderei  recuperar aquilo que um dia perdi.


OBS: ESSA HISTÓRIA É VERÍDICA, APENAS OS NOMES DOS PERSONAGENS FORAM MUDADOS






































 A  GAROTA DE PROGRAMA
Por Lidice Cambuí
Essa pode parecer mais uma daquelas histórias clichês que os compositores tanto usam nas suas músicas de sofrência, mas não é.  Aconteceu comigo.
Me chamo  Eliane, sou garota de programa, mas nem sempre fui assim. Uma vez a vida me deu uma chance de não repetir meus erros, mas eu desperdicei.
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas no caso do meu ex marido Felipe, isso não foi verdade.  O coitado recebeu não dois raios quaisquer, e sim duas descargas de alta voltagem suficiente para matá-lo , não fosse a sua força interior. E eu o admiro muito por isso. E sei que ele não merecia passar por tudo que passou. Sei que meu remorso nunca vai passar.
Bem, não que eu queira justificar, mas me tornei  garota de programa pela força das circunstâncias ao 12 anos. Minha família era desestruturada, meu pai alcoólatra e minha mãe trabalhava o tempo todo, quase não a víamos coitada, e o que ganhava ainda não dava para sustentar quatro filhos.
Eu, como filha mais velha, de repente não agüentei mais aquela situação. Tentava ajudar trabalhando de catadora no turno oposto ao da escola , mas não dava. Começei  trocando pequenos favores sexuais  com os colegas de escola em troca de produtos alimentícios . Os colegas, por sua vez, foram fazendo a propaganda boca a boca com os rapazes do bairro, que  me assediavam nas redondezas da escola . Quanto mais alto o favor, maior era o preço.
Começei a trazer coisas para casa que antes não podíamos nos dar ao luxo de ter: comida decente, roupas para as crianças. Minha mãe achava que eu ganhava na reciclagem. E atordoada para cuidar de tantas crianças, não teve a curiosidade de investigar a fonte de tudo aquilo.
Modéstia à parte , eu tinha talento e pra ser sincera, fui gostando da vida que levava. Aos 18 anos, terminei o ensino médio e disse aos meus pais que iria morar fora pra estudar. Mesmo eles  preocupados, permitiram.  Assegurei que lhes enviaria dinheiro todos os meses.
Fui pra cidade grande com duas colegas que tinham o contato de um cara que prometeu nos  agenciar, em troca de sustento e muita grana.
Nós fomos, mas a coisa não foi como pensávamos. O dinheiro não era lá essas coisas, e como eu ajudava meus pais, sobrava muito pouco pra mim. A solidão depois da noitada era devastadora.
Decidi retornar a minha cidade, mas não era fácil ganhar a vida de forma “honesta”. Não dava pra manter o estilo de vida que eu tinha na capital.
E foi nesse período turbulento que conheci o Felipe.  Um dia na porta de um bar , o garçom veio me oferecer um drink em nome de um certo rapaz sentado na mesa 30. Aceitei, agradeci, e quando penso que não, o dito cujo rapaz ergue a taça de longe p mim. Procurei permanecer em seu campo de visão, quando de repente o garçom  vem novamente , dessa vez para dizer que o mesmo cavalheiro me convidava a sentar em sua mesa. E já foi me conduzindo para lá.
-Outro drink? -  ele levantou-se  e cumprimentou beijando minha mão
- aceito-
Ele puxou a cadeira e me fez sentar a sua frente.
- meu nome  é Felipe, e tenho lhe observado desde que cheguei. Tinha certeza de que aguardava alguém , mas como passou o tempo e você continuava sozinha, resolvi lhe oferecer o drink. Espero que não se ofenda com a minha ousadia de convidá-la
- meu nome é  Eliane-  falei, baixando os olhos.
Eu mal podia encará-lo, ele era muito diferente dos caras com quem havia estado. Pela primeira vez, sentia que um homem não me olhava como uma mercadoria.
Começamos a conversar,  e parecia que nos conhecíamos a vida inteira.
Próximos encontros, e as confissões vieram a tona: ele havia sido traído pela ex mulher. Ele flagrou em sua própria cama  ao chegar de viagem. Perdeu a cabeça, apanhou um revolver e saiu correndo atrás do cara, que conseguiu subir no telhado , apenas de cueca, e de lá conseguiu escapar ou o Felipe teria feito a grande besteira da vida dele. Após o escândalo, a mulher confessou que já não o amava há tempos, mas como ele não percebia ou fingia que não percebia, ela resolveu tomar uma atitude drástica para por um fim nesse relacionamento que já não a satisfazia.
O choque de realidade muito fez o Felipe sofrer.
Da minha parte, confessei a ele minha vida errante e errada.
Para minha surpresa, ele disse que o meu passado já não importava, se eu realmente quisesse ficar com ele. Senti uma imensa gratidão por aquele homem,  gratidão que foi se transformando em paixão.
Nos casamos e tivemos três filhos, duas meninas e um menino.
Tudo parecia estar  indo muito bem, eu já administrava uma pequena loja de confecções que ele havia me ajudado a abrir. O Felipe parecia gostar muito de mim, me tratava muito bem, e eu aprendi a gostar dele.
Mas a vidinha de antes voltou a martelar na minha cabeça feito sino, vozes pareciam me chamar pra isso e eu fingia não ouvir. Um dia, um representante comercial  veio até a loja e então foi mais forte que eu. Começei  a inventar desculpas pro Felipe para poder chegar tarde, dizia que ia fazer trabalho da faculdade com as colegas , ou que ia na casa de alguma amiga.
Até que um dia a casa caiu. Alguém contou pro Felipe , que por sua vez  veio até mim atordoado chorando querendo respostas. Nem eu mesmo acreditava no que tinha acabado de fazer e ainda com alguém como o Felipe. Como pude ferir alguém que já foi tão ferido? Não tive alternativa senão confessar toda a verdade. Era o mínimo que podia fazer . Era o mínimo que eu devia ao Felipe depois de tudo que ele fez por mim: A VERDADE.
Tentei permanecer na cidade, mas ficou insustentável diante da depressão em que o Felipe mergulhou.  Não dava pra suportar vê-lo assim.  Minha cabeça tão confusa em parafuso já não me deixava ser uma boa mãe.
Então , com o coração sangrando, bati na porta do Felipe e entreguei  a ele os três pedaços do meu coração que batem fora do meu corpo.  Ele não quis acreditar naquilo e ficou sem reação. Antes que ele protestasse, eu virei as costas e fui embora antes que me arrependesse.
Fui morar em outra cidade a convite do Vicente, mas ele foi só o primeiro dos muitos caras que passaram pela minha vida e pela minha cama.
Não me acostumei a acordar todo dia e ver o mesmo rosto dormindo ao meu lado. Ainda não entendi por que sou assim, mas assim é.
Deixei meus três filhos com o Felipe, pois sei que ele é a melhor pessoa para educá-los. Não sou exemplo de vida pra ninguém . Não quero ser uma influência negativa para meus filhos, principalmente as meninas
Se no início eu fui garota de programa  por necessidade,  hoje eu já nem sei  bem o porquê. Eu não queria ser garota de programa, mas ao mesmo tempo sentia uma atração inexplicável por esse estilo de vida. Não se explicar, mas é mais forte que eu.
Hoje eu choro, mas são lágrimas negras, que me levam pro passado que não vai voltar.Lágrimas negras, tomaram o lugar do brilho em meu olhar e em seu lugar só ficou a culpa, um horrível sentimento de culpa. Lágrimas com maquiagem mancham minha máscara, a máscara que uso para disfarçar minha instável personalidade.
E  assim vou prosseguindo nessa minha vida errante e errada, sabendo que nunca mais poderei  recuperar aquilo que um dia perdi.












Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sozinha, porem rodeada