“O ESTRANHO DO ONIBUS”
Por Lídice Cambuí

Nunca acreditei nessa história de amor de verão, nem amor à primeira vista. Esse negócio de “desde o primeiro oi, pra mim já foi” não fazia muito sentido pra mim. Não achava provável até acontecer comigo .
Vinha eu de uma visita a uma amiga , numa cidade a 230 km da minha, uma noite comum, numa viagem comum de volta pra casa. Ônibus lotado, pós feriado, só consegui uma vaga na última poltrona do ônibus, ao lado de um bêbado que não parava de falar e cantar.
Esse bêbado muito perturbou , até desceu pra tomar mais uma.  Duas poltronas à minha frente, um rapaz estilo nerd intelectual  sorria bastante do comportamento do bêbado.
E eis que na metade da estrada o bêbado chega ao seu destino, para meu alívio.
De repente, o carinha à minha frente veio se sentar  na poltrona ao meu lado. Começamos a conversar e algo estranho aconteceu:  descobríamos que tínhamos muito em comum.  Ele gostava de Karl Marx, e de militância política, e eu estava estudando justamente isso na faculdade. Os quilômetros foram poucos pra tanta conversa. O problema é que o beijo ficou no ar. Trocamos telefone e email.
Eu não me manifestei , e a pergunta ficou martelando na minha cabeça : será que você pensou a mesma coisa que eu pensei , ou é só uma loucura da minha cabeça?
Ele não era meu tipo, mas eu sentia uma atração irresistível naquele carinha dos olhinhos inteligentes. Sedução subtendida.
Uma semana depois, teclando com ele , ele confessa que gostou de mim também.
Animada, combinamos de nos encontrar numa tarde qualquer. Ele estava visitando a família numa cidade vizinha a minha, pois estudava e trabalhava na capital.
Eu só teria aquela tarde sozinha em casa. Ele veio até minha casa, sentamos no sofá pra conversar, quis servir uma shampagne pra ele, ele recusou. Conversamos a tarde toda, m as no fim das contas só rolou um único abraço.  Quando tudo passou e ele me deu tchau,  eu fiquei com aquela de interrogação e uma terrível sensação de algo não realizado.
Parei de falar com ele por ter ficado chateada com tudo aquilo tudo que não aconteceu. Ele também parou de falar comigo e apareceu com uma namorada no perfil das redes sociais.
Passou-se um bom tempo, e a gente não se falava de jeito nenhum. Até que um belo dia, ele puxou papo pela net, e então eu aproveitei pra saber o que realmente tinha rolado.
Aí que ele foi confessar que realmente tinha gostado de mim, mas que na véspera da gente se encontrar, uma ex namorada reapareceu e propôs a ele reatarem o namoro. Então ele foi à minha casa só pra cumprir tabela mesmo, decidido a não rolar nada comigo ( como eu ia ficar sabendo disso se ele não me contasse?)
Mas enfim, tudo esclarecido, ele disse que iria para São Paulo tentar a vida.
Não me contou que tinha terminado com a namorada.
Coração quase saindo pela garganta, respondi e o papo rolou como se fosse a primeira vez .
Contei pra ele todo o meu desejo reprimido, e ele se dispôs a realizá-lo quando viesse visitar a família , pois ele ainda estava em sampa trabalhando.
Teclamos durante algum tempo, sedução recíproca à flor da pele,  mas ele não foi a pessoa que eu pensei que fosse.
Muito afoito, muito impaciente, eu diria sufocante, o que me intimidou bastante. Acabamos nos desentendendo de vez.
Hoje só me restam as lembranças. Não tenho mais notícias dele. Não sei onde ele está, o que está fazendo  ou se está com alguém..
Só sei que fantasias são pra serem realizadas, e as minhas ainda não morreram, e não morrerão nunca.
Durmo e acordo pensando em como seria beijar aquele carinha naquele ônibus, naquela noite.


 OBS: ESSA HISTÓRIA É VERÍDICA, APENAS OS NOMES DOS PERSONAGENS FORAM OCULTADOS.







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