COWGIRL POR ACASO
Por Lidice Cambui

Ela acordou suada, com o corpo gelado, dando-se conta que já estava sentada na cama em posição de se levantar.
Outro pesadelo. Já era o terceiro essa semana.
Desde o acidente, sua vida não era mais a mesma, apesar de ela estar fisicamente recuperada.
Nem ela entendia bem esse tal de estresse pós-traumático.
O acidente ocorrera há cinco atrás, assim que ela tirara a carteira de habilitação.
Ela se sentia culpada e com um medo mórbido de pegar no volante novamente.
Sua vida social não existia mais, aliás, que vida social?  Os amigos que restaram vinham até sua casa para vê-la, porque ela só saía para trabalhar, na empresa do pai, na qual ela era a administradora.
As terapias semanais, ajudavam, mas ainda não o suficiente para ela se sentir livre pra recomeçar . O médico havia detectado o estresse pós traumático e depressão moderada.
Até que um dia, o terapeuta pediu que ela  relembrasse o máximo que pudesse da sua infância. Foi quando ela se lembrou que durante um período ela havia gostado de cavalgar na fazenda do avô, até que um dia a Capitu, sua égua preferida disparou e ela resolveu admirá-la apenas de longe daquele momento em diante.
O terapeuta então, incentivou-a a procurar aulas de equitação.
“Aulas de equitação” , começou a suar só de pensar
“ É normal esse pânico inicial”, alertou o médico.
Foi então que um amigo indicou um haras que não ficava tão afastado da cidade.
Foi até lá, e uma moça muito atenciosa veio recebê-la com um sorriso.
“Venha conhecer as baias”, convidou ela
Ao se aproximar do estábulo,  ela já começou a suar frio e o coração acelerar de puro pânico. Ela associava o cavalo ao veículo, e aí bloqueava tudo em sua mente.
E foi então que o treinador responsável  chegou. Lindo demais pra ser um treinador , pensou ela.
Ele era branquinho, alto, cabelos e olhos muito pretos, contrastando com suas bochechas rosadas pelo sol e pelo esforço em cuidar dos cavalos.
“Olá meu nome é Felipe. Prazer, pronta pra treinar?”
“Não muito”, respondeu ela sem graça tentando esconder seu medo, apesar dos olhos arregalados.
“Venha comigo, vou lhe apresentar  sua companheira de treino”, disse ele, apontando para uma porteira.
“Não se preocupe, a  PRINCESA  é a mais dócil que temos por aqui.Não há com que se preocupar. Só pense no que poderá aprender ao cavalgar com ela: confiança, a sensação de segurar as rédeas da sua vida em direção ao horizonte que você  indicar”
No primeiro dia, ela nem conseguiu chegar muito perto.
Na semana seguinte, o Felipe a fez acariciar a PRINCESA que comia tranquilamente sua ração.
Terceira aula,ele praticamente a pegou no colo, para que pusesse o pé no estribo.
A sensação de estar em cima de um cavalo novamente a deixou  tonta.
Pediu pra descer, controlando a náusea. Ele a ajudou a descer, e reafirmou que ela estava progredindo.
Pouco a pouco, ela aumentou as aulas para duas por semana.
O Felipe , muito atencioso, mandava mensagens de incentivo pelo celular, e estendiam as conversas depois da aula. Foi nessas conversas que ela contou o trauma pelo qual havia passado. Ele lhe contou então que era agrônomo formado, mas preferiu ser cuidador de cavalos, domador, treinador e competidor, pois era isso que o fazia feliz.
E não é que o cowboy bacanizado a fez perder o medo de cavalgar?
Professor e aluna se tornaram companheiros inseparáveis de baladas sertanejas.
Ao fim de um ano, ela já estava recuperada , pronta para voltar a dirigir veículos, com a ajuda da psicóloga da auto escola.
Felipe aplaudia cada conquista dela, e quando ela pegou sua carteira renovada, elE ficou tão empolgado que a beijou.
“Nossa , que beijo”, ela pensou o dia todo.
Ele também não conseguia esquecer, e nem entender porque fizera aquilo
Saíram pra tomar um chopp e comemorar, dançaram musica lenta abraçadinhos, e quando ela estava de olhos fechados encostadinha em seu peito , ele falou:
“preciso  te mostrar uma coisa”
“agora?”
“agora.”
Ele pegou sua mão apressadamente, entraram no carro e ele partiu rumo ao haras.
Ela não entendeu nada.
Ele a levou até o estábulo, e próximo á janela reluziam uma cela rosa lindíssima e uma outra caixa.
“são pra você”
Ela passou a mão pela sela,  personalizada , bordada com as iniciais do seu nome, tão linda, tão macia. E nessa hora soube que seu coração estava atrelado ao dele.
Ela apanhou a caixa, abriu cuidadosamente, e lá estava um par de botas femininas lindíssimas personalizadas para ela.
E com o brilho do luar que entrava pela janela como testemunha, ele a pediu em namoro. Se amaram ali mesmo, matando a paixão reprimida há um ano. No meio dos fenos e naquele ambiente com a qual ela nunca sonhara passar uma noite de amor, o desejo desabrochou e a coragem renasceu.   O jeito carinhoso do cowboy, seus beijos urgentes, seu cabelo preto macio, tudo conspirava para tornar a noite ainda mais linda e para ela se entregar completamente. PRINCESA assistia tudo aquilo e parecia assentir com a cabeça e abanar as orelhas em aprovação.
Sacudindo os fenos das roupas ,ele se levantou e a ajudou a se levantar.
Olhou para a égua que não parava de espiar:
“shiiiit, você não viu nada , tá, moçinha?”, falou ele sorrindo para a égua
Ele se ajeitou, abotoou a calça e os botões da camisa, abotoou a fivela, e calçou as botas que tinha jogado num canto.
Analice abotoava a blusa, feliz,  e de mãos dadas seguiram para o carro. Sertanejo no pendrive, agora era só felicidade e viver esse amor que a vida lhe tinha presenteado.
E de bônus ela tinha aprendido que equitação não é apenas aprender a montar bem, é vencer os medos mais íntimos.
Agora a garota antes medrosa se dividia entre a empresa do pai e o haras, onde passou a auxiliar seu namorado nos afazeres com os cavalos nos fins de semana.
E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração, e quem irá dizer que não existe razão.






















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