“ TODO CANTO”
por Lidice Cambui
Do alpendre da sua
casa , seu Alcides observava os namorados na praça em frente a sua casa. Ah, já
não se fazem mais amores como antigamente.
Dona Teodora, sua amada, falecera há dois anos, depois de cinco décadas juntos, e tudo naquela
casa , cada canto, lembrava ela. Mesmo assim, por algum motivo ele não queria
sair dali, apesar da insistência dos filhos e netos, que viviam convidando ele
a morar com eles. Mas a cada vez que ele
ouvia essas propostas , ele pensava
“como é que eu arranco as paredes , o chão da sala. A casa inteira eu to
doando, se isso me fizesse esquecer ela”
Mas enfim, meio corcunda e devagar, seu Alcides senta em sua cadeira de balanço, e sua vida com Teodora começa a passar como um filme em sua cabeça, de novo, pra variar.
“Se eu vendesse o sofá, as cadeiras , a cama, o rack,, a mesa não ia adiantar ... cada canto da casa é um canto especial onde a gente fez amor, a gente não perdoou nada “
E de repente, ele estava de volta a 1950, chegando na cidade desconhecida tentar a vida como marceneiro. Homem feito de seus 20 e poucos anos, logo mostrou a que veio, pois era muito trabalhador. E foi numa tarde tão linda de sol que ela apareceu, a linda menina de 14 anos, jeito de menina, corpo de mulher. E no mesmo instante em que a viu, ele teve certeza: é com ela que eu quero me casar.
Foi pedir aos pais da moça, muito tradicionais, que permitiram meio a contragosto, só porque ele prometeu que o casamento não ia demorar.
Assim foi feito. A menina rapidamente se transformou em uma linda mulher, e a cumplicidade cada dia era mais evidente
Eles estavam no banheiro, debaixo do chuveiro, e o desejo falava mais alto que a timidez.
Descoberta e exploração pura de amor selava essa eterna conexão de almas.
Estavam no dia em que chegaram da lua de mel, ele a estava levando nos braços para o quarto. A tremedeira dela, como ele a tranqüilizou e a deixou a vontade , ah isso era impossível esquecer! O primeiro beijo de verdade foi na lua de mel, e foi tão lindo!
Agora ele ouvia os gritos dela. Ela estava tendo o primeiro filho e por ser muito nova, estava assustada, mas a forma como ele segurava sua mão durante todo o tempo foi a forma de dizer que para sempre um estaria ali para o outro, em qualquer situação.
E aos poucos, os gritos de agonia da menina tímida foram dando lugar a gemidos de prazer no sofá da sala ou na mesa da cozinha enquanto as crianças estavam na escola e ele dava uma fugidinha da marcenaria.
Como num passe de mágica, ele chegava na cozinha, ela terminando de lavar a louça e já ia passar o café quando ele chegava e a fazia esquecer do resto da tarde, ali mesmo na mesa, no chão, pois duas almas que se desejavam tanto quanto eles não existiam na face da terra .
Ele agora estava vendo ela fazendo a barra da calça do filho mais velho, no sofá, e ele a achou mais bonita do que de costume. Então ele abriu a porta como quem não quer nada , e senta no sofá com ela, observando sua destreza com a agulha. Depois , com delicadeza, tira as coisas de costura da mão dela joga pra lá, e a beija, deitando no sofá.
Então ele aspira seu perfume, sente seus cabelos e sua pele, sua amada tão linda, tão dele.
Mesmo se o ar condicionado tivesse no 15 eles teriam suado, imagina naquela época, com tudo tão primitivo e natural. No máximo um radinho de pilha pra fazer a trilha sonora e tava bom demais.
E então Alcides viu sua vida inteira passando, os tempos de muito trabalho e agonia pra criar as crianças.... a traição.
Ele ouvia a voz de Teodora dizendo “traz pra gente criar o filho dessa outra , meu véi”
A voz dela dizendo “meu véi, troquei aquela casa lá por uma televisão, viu”
50 anos juntos sem nunca pensar em separar.
Mas o neto o acorda do seu devaneio : “vovô, vovô!! o Tonico e o Miguel estão esperando no barzinho ali pra jogar e tomar cerveja! Esqueceu que dia é hoje”
“oh meu filho, é verdade, eu peguei no sono aqui ! Tava até sonhando com a sua avó, sabia”
“ Verdade, vô quando chegarmos lá o senhor vai contar tudo pra gente , não vai “
“se eu lembrar de tudo né filho, você sabe que a memória do seu avô já não é a mesma"
E lá se vai seu Alcides pra mais uma rodada de pôquer com os amigos, tomar cerveja com canudo, depois rir alto sem saber de que... enfim...
Mas por dentro seu Alcides se sentia tão metade que não conseguia sequer descrever pra alguém em palavras o tamanho desse vazio que sentia no peito.
Ali era uma terapia pra ele conversar com o pessoal, jogar e tomar uma, a famosa terapinga não dava jeito na saudade, mas por alguns instantes amenizava .
E assim seu Alcides esperava dia a dia o fim da sua jornada, com a serenidade de quem sabe que amou e foi amado como poucos na terra.
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