A MALDITA CONVERSA...


Ajoelhado, olho derrotado para o céu, esperando uma súplica das estrelas, em te fazer mudar idéia, em cair nos meus braços, e esquecer essa maldita conversa… ao qual mudaria tudo!



            O ano era 1920, um pós-guerra ao qual não atingiu diretamente, porém, não quer dizer que não me afete, um jovem com 20 anos, recém formado em direito com honras na melhor instituição de Lisboa. Jovem, queria mudar o mundo, através do que tinha em mãos. Mas antes, meu padrinho e tutor haviam sugerido visitar um bom amigo de infância ao qual estimo de todo coração, em Londres, já que seus pais haviam sido vitimas da 1 grande Guerra que devastou metade da Europa. Então como um pedido feito pelo próprio, por mais que eu esteja animado a começar a minha caminhada em salvar vidas, fui a Londres a fim de encontrá-lo.
            Antes de minha partida, trocávamos cartas, e em muitas delas ele descrevia com detalhes as belezas londrinas: incluindo suas ruas, cheiros, oportunidades e as mulheres, claro.
            Bom não era que eu não tinha as minhas conquistas, em Lisboa, sim deixei uma paixão juvenil, éramos apaixonados, queria muito casar com ela e ter filhos, viver ao lado dela pelo resto dos meus dias, porem, seu pai muito rígido, não queria que um órfão, sem sobrenome, e apadrinhado por alguém sem linhagem.
            Bom antes de aprofundar nessa historia, esclarecei alguns pontos nela. Sim eu sou órfão, vivia nas ruas desde que eu era muito pequeno. Vivia de pequenos furtos, e em um deles eu conheci meu bem feitor, por ironia do destino me abrigou, gentilmente me batizou, deu carinho, e todo o conhecimento disponível na época ao meu alcance. E por mais que não tenha conhecido meus pais, pois muito novo fui aprender a sobreviver e não morrer de fome.       Meu padrinho e agora tutor, um comerciante alemão, fugido do seu país, da guerra ao qual sabia que chegaria, e eu um franzino garoto português de 10 anos que passava fome na rua e batalhava por um pedaço de pão duro e um pouco de água para matar a sede.
            Para conseguir uns poucos tostões, furtava de outros pequenos comerciantes e alguns distraídos, enfim, fazia de tudo para sobreviver aquele frio cortante, a fome que apertava e a saudade que tinha dos meus pais. Por que infelizmente os perdi por conta da varíola.  
Quando o vi pela primeira vez, confesso, pela primeira vez senti medo, pensei seriamente em desistir desse furto, não sabia, mas ele me intimidou. Porem como era conhecido como o gato negro, por ser rápido nos roubos e era imperceptível em sua grande maioria. Mas naquele dia algo havia acontecido não me sentia bem, e falei para o chefe do bando, mas para a minha infelicidade, não me escutou.
Com uma ordem expressa, em tom ameaçador, acabei indo assim mesmo, acredite tudo deu errado nesse dia, ferido fui deixado para trás, a mercê da minha sorte. Esperando pelo pior, tentei me esconder, em vão, pois meu rastro de sangue ficou pelo chão deixando assim uma pista de onde estava.
            De gato esperto, naquele momento, era um rato preso em uma ratoeira, esperando a morte vir como uma simples brisa em uma noite quente de verão. Para a minha surpresa, não foi isso que aconteceu, em vez de me deixar a morrer ou me entregar a policia, sua atitude foi me carregar no colo e cuidar dos meus ferimentos. Sem esboçar um só ruído ou palavra, pegou os remédios e cuidou das minhas feridas abertas no roubo mal sucedido. Porem essas dores não me afetava, contudo meu orgulho sim afetava muito principalmente quando fui deixado para trás. Hoje eu sei, que não meus amigos, e sim uma quadrilha de pequenos ladrões, e eu era um deles.
            Por dias o meu bem feitor me deixou curar as feridas em sua casa, e quando já estava forte o suficiente para poder voltar para a minha antiga vida, me chamou e me fez a seguinte proposta, em troca de um teto e um prato de comida todos os dias teriam que ajuda lo na sua loja. Não havia que pensar muito, acabei aceitando aquela oferta e comecei naquele dia mesmo. E teria seguido assim se ele não percebesse que era esperto e aprendia a fazer contas mentalmente com certa agilidade e percebia o quanto os clientes queriam dar um pequeno golpe nele.
            Completando 12 anos já tínhamos cultivado um carinho tão sincero quanto teria um pai para um filho, e com esse carinho ele pagou tutor para obter aulas regulares, esgrima e mandarim, o que posteriormente descobri o real motivo. Ele me queria na frente da sua rede de comercio ao qual ele expandiu por toda a Europa e queria uma parceria na China, Tailândia e Japão.
            Porem meu desejo em ajudar o mais necessitado gritou dentro de mim, inclinando para o direito e agora recém formado, regresso em casa, com uma carta esperando por mim.
            Martim tinha sido meu melhor amigo no ensino preparatório e coincidentemente fomos para a mesma instituição, não fizemos o mesmo curso, já que a ele a medicina o seduziu assim como um canto de sereia em um ouvido de um marinheiro em alto mar.
             Enfim no dia marcado em pé com a mala do meu lado, aguardando na estação meu amigo atrasado, a pontualidade londrina não cabia a ele. Bonachão e sempre com um sorriso nos lábios, ele era a alma das reuniões na instituição, e sempre que saiamos para bailes, ou algo parecido, sempre arrancava risadas dos convidados e suspiros das damas nos salões de toda Londres e Lisboa. E eu por outro lado, sempre centrado, compenetrado, focado em meu objetivo ate esse dia...
            Perdendo a paciência de esperar por Martin fui à porta da estação com o objetivo de conseguir um carro para que possa me levar a casa dele. Confesso que meu inglês não e fluente, porem consegui o ultimo, porem não da forma que queria, como era o ultimo, dividi com uma morena também recém chegada à capital, ela não era como as outras, tinha um brilho no olhar. Algo hipnotizante, algo que faria qualquer homem se perder naquele olhar. Era terno, sincero, embriante, vivo, quase não escutei a voz do motorista solicitando a mala e ordenando que entrasse já que estava de partida.
            Envergonhado por tal atitude, entrei e permaneci em silencio boa parte do trajeto, ate que por fim ela começou a conversar comigo, nossa sua voz era melodiosa, como um anjo inclinando-se em nosso ouvido, para desejar bons sonhos, meu Deus, como ela era linda.
            Minha vergonha por encará-la era enorme, que fiz um esforço enorme para tentar me concentrar na conversa que havia iniciado, pois somente assim, pude conhecer um pouco mais sobre essa bela dama morena de olhos escuros, lábios carnudos e uma voz embriagante.
            Naomi Beneditti, mora com os pais na Itália, e veio a Londres para passear antes de ir a Paris estudar arte contemporânea. Ouviu bastante falar bastante sobre National Gallery, Museo Britanico e o Victoria and Albert Museum. Não prestava muita atenção ao que ela dizia, olhava com ternura e desejo por aquela boca. E a cada vez que ela percebia, sentia que meu rosto ficava mais vermelho, que a mesma chegou a perguntar se eu estava me sentindo bem. Nunca uma viagem de 10 minutos de carro durasse tanto.
            Enfim ao chegar ao meu destino, paguei a pequena viagem e com o meu extremo cavalheirismo, paguei a dela, e com extrema delicadeza me agradeceu e disse com sua voz rouca e embriagante, e me convidou para um café no Quo Vadis no outro dia às 17 horas para devolver a minha gentileza.
            Com um largo e emocionado sorriso em meu rosto, logo vi meu amigo que quis a todo custo saber o motivo de minha felicidade, apesar, de que ele já imaginava o que havia ocorrido porem, tratei de confrota-lo do motivo ao qual ele não havia ido me buscar a estação horas antes, quando uma figura feminina havia saído de sua habitação quase que imperceptível, por um pequeno detalhe, devido a minha criação antes do meu tutor, nenhum detalhe escapa de mim, nem uma bela mulher loira com o mínimo de roupa posta em seu belo e pequeno corpo. Agora meu belo e depravado amigo apesar do imenso vermelho em seu rosto seu sorriso era indigno, principalmente naquele momento, e como um gato de rua que sempre fui, consegui escapar de seu interrogatório e deixar as minhas malas e um forte e terno abraço nos envolvemos e assim matamos a saudade de meses longe de nossas conversas.
            Porem o interrogatório não tardou em aparecer, já que perguntei aonde era e como chegaria ao tal café, e como não haveria escapatória acabei contando de Naomi e como paramos no mesmo carro, e ele com um imenso sorriso sacana estampado em seu rosto, disse que eu um dia iria agradecer-lo por não ter aparecido na estação na hora marcada.
            Cansado, tomei um banho demorado, e fui ao meu quarto, adormeci e aquele belo rosto começou vir a minha mente, chegando a invadir meus sonhos, beijando aquela pequena boca, sustentando em meus braços e não largando mais. Assustado por aquele sentimento pulei da minha cama, suado, sem graça, e talvez apaixonado, mas como? Jamais havia me sentido assim, meu coração batia dentro do meu peito feito louco, tratei de me acalmar e tentar voltar a dormir. Porem, a ansiedade de vê-la era maior, que ao final acabei pegando um livro e o li ate o amanhecer.
            Assim que o sol nasceu em minha janela, tratei de vestir-me e sai sem rumo e me propus a conhecer a bela capital londrina, já que o plano inicial era esse. Sem dizer uma palavra ao Martin, sai sem rumo, sozinho, apesar dos protestos dele, consegui dissuadi-lo e sai.
            A rua cheia de pessoas que dividiam com os bondes elétricos, o que muitos consideravam o transporte mais moderno naquela época, porem não havia muito a se ver por la já que a guerra havia devastado muito a sua arquitetura.
            Continuei andando a esmo, tentando entender o que se passou por mim noite passada, jamais havia sentido algo parecido, eu tinha minhas paixões, mas ninguém havia feito meu coração bater tão forte como aquela mulher de cabelos negros e um corpo marcante.
            Com muita fome almocei em desses famosos pub’s ao qual não me recordo, voltei à casa de meu amigo, calado encerrei em meu quarto e la fiquei ate a hora marcada para aquele encontro ao qual estava tentando criar coragem para ir ao ate ela.
            Cheguei um pouco antes e bastante nervoso, mas antes passei por uma floricultura acabei comprando uma bela rosa branca, não estando ciente do motivo ao qual escolhi a cor, mas achei que combinaria com a pele dela. Chegando ao café na hora marcada sentei em uma das mesas que ficavam fora do estabelecimento torcendo para que ela aparecesse e não, e que por fim ela veio, com um vestido florido que marcava ate a sua cintura e sua saia era rodada, carregava consigo uma bolsa pequena e um chapéu e seu belo sorriso em seus lábios carnudos e sedutores, ao qual, me cativava ainda mais.
            Ainda sem entender o motivo certo, meu coração bateu ainda mais forte ao vê-la andando por entre as mesas, mas para mim parecia ela dançava com seu vestido florido, como um anjo voando por entre as nuvens no céu.
            Como um perfeito cavalheiro, levantei e puxei a sua cadeira, convidando-a sentar e começamos a conversar, e assim prolongou por horas, confesso que não me lembro da metade do que falamos, ou do que pedimos como um bobo apaixonado tentava memorizar cada gesto, tonalidade de sua voz, e sem soar como pervertido, cada curva do seu belo corpo sentado ali na minha frente. Torcendo para não avançá-la tomar em meus braços e beijá-la e jamais solta-la.
            Ate que por fim, percebendo meu distanciamento, ela percebeu e chamou a minha atenção e disse que iria embora, mais que depressa insisti em levá-la ate o local em que ela estava hospedada. Já que era tarde para ela andar sozinha e queria reparar o meu distanciamento durante aquele encontro.
            Oferecendo meu braço e assim posicionando ao meu lado, começamos a caminhar, e assim continuamos a nossa conversa, percebendo o meu silencio durante certo tempo, e percebendo o meu nervosismo aparente, começou a fazer perguntas como onde morava, com quem morava, e o porquê escolhi a minha profissão de advogado. Tentando controlar o nervosismo ainda mais latente no tom da minha voz consegui responder todas as possíveis perguntas, ocultei o meu passado de pequeno ladrão e o motivo pelo qual cheguei à casa do meu padrinho. A noite era morna apesar do outono frio fazia há alguns dias atrás. E enfim chegando a porta do local onde estava hospedada me despedi com um beijo em seu rosto. Lamentando fortemente não ter cedido a tentação de beijá-la apaixonadamente, mas imaginei que era cedo demais e que deveria segurar meus impulsos e tentar conquistá-la aos poucos, isso ficaria mais fácil já que agora sabia onde ela estava.
            À volta para casa de Martin foi o mais belo passeio que havia feito em toda vida, enfim via cores em tudo, a vida enfim era mais divertida, prazerosa, embriagante e apaixonante, nunca pensei que sentiria o aroma do amor, o sabor do desejo, estava completamente apaixonado por essa pequena mulher de cabelos castanhos e boca carnuda, estava disposto a fazer tudo por ela, custe o que me custasse.
            Os dias seguintes a aquele encontro que me arrebatou, procurei tentar conquistá-la sem ser invasivo, fui o mais romântico dos apaixonados, flores, passeios, inúmeros gestos aos quais procurei demonstrar o que realmente sentia por ela, ate que todos os meus sonhos se realizaram e por fim trocamos o nosso primeiro e maravilhoso beijo. Pude enfim provar aqueles lábios aos quais me perdi completamente neles por horas. Uma pena que o tempo dela na bela cidade londrina estava por fim, já que a sua passagem para a maravilhosa cidade parisiense estava comprada e ela precisava ir. Como um ato impulso, propus mudar meus planos e ir com ela, afinal era uma viagem que meu padrinho havia proposto, e dizia que arcaria com as despesas. Eu só enfim, encurtei a minha estada em casa de Martin, apesar de seus protestos, ainda mais que havia pedido para não contar nada ao meu padrinho, já que faria o mesmo, com a mais bela noticia de que teria uma noiva e que era o homem mais feliz da terra.
            A viagem com Naomi foi a mais bela e encantadora possível, desfrutamos muito da companhia do outro em todos os sentidos. E por fim chegamos à bela e sedutora cidade de Paris. Apesar do que a guerra tenha causado, ela jamais perdeu o seu charme ainda mais o por do sol ao redor do tour Eiffel.
            Pegamos as nossas bagagens e fomos ao nosso recanto que por sorte, estava vazio devido à guerra recente e a época, os dias que sucederam foram de puro amor, desejo, sedução, carinho e juras de amor. Enfim mais apaixonado por essa mulher era pouco para aquilo que eu sentia por ela.
            Durante os dias passeios fomos a Shakespeare and Company, Palácio de Versalhes, a Basílica de Sacré Coeur, Catedral de Notre-Dame. O Pont des Arts acima do rio Sena, seguimos a tradição de selar nosso amor com um cadeado e jogar a chave no rio. Para que assim o nosso amor fosse eterno...
            O nosso ultimo dia juntos na cidade Luz estava chegando e não estava disposto a deixá-la ir a Itália sozinha, a queria, a desejava, estava louco de amor por ela, e estava disposto a ir ate aos pedi-la em casamento. Faria tudo por ela, ate abandonar a minha recente e criada carreira e começar uma nova vida ao lado dela. Não importava mais nada, só Naomi. Infelizmente meus planos mudaram, eu não estava encaixado aos planos dela. Descobri isso tarde demais.
            De joelhos, na estação de embarque nos vagões para enfim ir a Itália a pedi em casamento. Porem sua resposta foi de cortar meu coração em pedaços:
            “Adrien, não!”


Ajoelhado, olho derrotado para o céu, esperando uma súplica das estrelas, em te fazer mudar ideia, em cair nos meus braços, e esquecer essa maldita conversa…


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